Dr.Manoel Dias de Abreu, médico, cientista e poeta

01Filho de mãe brasileira e pai português, nascido em 4 de janeiro de 1892, Manoel Dias de Abreu (fig.1) conseguiu ser aprovado na Faculdade de Direito de São Paulo aos 13 anos, mas não pode se matricular pela pouca idade que tinha. Enviado à Europa para ter aulas particulares, regressou ao Brasil em 1908, entrando na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, formando-se em 1913.

Apresentou, na época, a tese de doutorado baseada na influência do clina tropical sobre a civilização intitulada Natureza Pobre em julho de 2014.

Em 1914 inicia-se a Primeira Guerra Mundial e o médico e sua família estavam em Portugal e não puderam retornar. Muda-se para Paris aonde mora por oito anos, lá tendo contato com filósofos, escritores e cientistas como Baudelaire (fig.2), Antero de Quental (fig.3), Nietzsche (fig.4) e Darwin (fig.5), decidindo seguir o caminho da ciência.

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Inicia seu trabalho no Nouvel Hôpital de La Pitiê em Paris, responsável por fotografar peças cirúrgicas, construindo um engenhoso dispositivo para fotografar a mucosa gástrica. No ano seguinte passa para o Hôtel-Dieu (fig.6), hospital mais antigo da cidade, trabalhando e pesquisando os Raios-X, criada por Roentgen, físico alemão em 1895 (fig.7), assumindo a chefia do Laboratório Central de Radiologia.

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No hospital Laennec especializa-se em radiologia pulmonar desenvolvendo a técnica da densimetria, ou a mensuração de diferentes densidades radiográficas no tórax. Em 1921 publica

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Roentgen, físico alemão, criador do RX

o livro “Radiodiagnostic dans la tuberculose pleuro-pulmonare” (Editora Masson, Paris) aonde mostra a convicção de que o controle da tuberculose deveria passar por diagnóstico em massa da população.

 

 

Ao retornar ao Rio de Janeiro em 1922 a cidade estava assolada por uma epidemia de tuberculose que o impressionou a ponto de declarar: “Havia óbitos, não havia doentes, os quais ocultavam seu diagnóstico na espêssa massa da população; os poucos doentes que havia, procuravam o dispensário na fase final da doença, quando o tratamento, o isolamento e as várias medidas profiláticas já eram inúteis”

Criou anexo ao Dispensário de Tuberculose do Rio de Janeiro o primeiro Serviço de Radiologia para o diagnóstico da tuberculose. Assume o serviço de radiologia do Hospital Jesus e desenvolve a Fluorografia em 1936, com imagens nítidas o suficiente para diagnosticar a tuberculose. Produz, com um aparelho construido pela Casa Lohner, filial da fábrica Siemens (fig.8), no Rio de Janeiro, o primeiro Serviço de Cadastro Toráxico, provando a precisão do método no diagnóstico da tuberculose.

08Durante o ano de 1938, três Serviços de Recenseamento Torácico foram criados em São Paulo: no Instituto Clemente Ferreira, no Hospital Municipal e no Instituto de Higiene. Outras cidades do Brasil, da América do Sul, Estados Unidos e Europa também adotaram a fluorografia como instrumento na luta contra a epidemia de tuberculose.

O Dr. Ary Miranda, presidente do I Congresso Nacional de Tuberculose realizado em maio de 1939, propôs que fosse utilizado o nome abreugrafia para designar o método criado por Manuel de Abreu. Anos depois, em 1958, o prefeito de São Paulo, Ademar de Barros, determinou que as repartições públicas da Prefeitura deveriam obrigatoriamente usar o termo abreugrafia e instituiu o dia 4 de janeiro, dia do nascimento de Manoel de Abreu, como o Dia da Abreugrafia, imitando o gesto do então Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira (figs.9, 10 e 11).

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Com o intuito de diminuir o número de casos sem diagnóstico baciloscópico, nos brindou com a pesquisa do bacilo de Koch no lavado pulmonar ou lavado traqueobroncoalveolar. O primeiro lavado foi realizado em 17 de agosto de 1944 no Hospital São Sebastião.

A Abreugrafia popularizou-se como método de diagnóstico de massas de baixo custo e de fácil execução. Em localidades com tuberculose endêmica a abreugrafia era feita gratuitamente beneficiando a população fig.12). Com a evolução da tecnologia foram criados equipamentos móveis, que percorriam fábricas e escolas fazendo os exames de funcionários e alunos (fig.13). Com a diminuição dos casos e dos custos com outros equipamentos, a abreugrafia foi abandonada, mas sem jamais esquecermos o pioneiro que foi Manoel de Abreu.

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A invenção de Manoel de Abreu foi responsável pela maior revolução no campo de diagnóstico 13precoce das doenças do tórax, principalmente a tuberculose e o câncer de pulmão. O método desenvolvido pelo médico era muito eficaz e permitia a realização de um grande número de exames em um curto espaço de tempo. A invenção de Abreu possibilitou o rastreamento da tuberculose, de tumores e doenças pulmonares ocupacionais (associadas ao trabalho). O seu custo operacional reduzido e sua alta eficiência proporcionaram a difusão mundial do método. Foram criadas unidades móveis com aparelhos de abreugrafia instalados em veículos, que realizavam as radiografias torácicas em locais públicos e em grandes indústrias. Na Alemanha, até o ano de 1938 o número de exames feitos já ultrapassava os 500 mil.

A importância de sua obra rendeu-lhe inúmeras homenagens no Brasil e no Exterior, como Cavaleiro da Legião de Honra da França, medalha de ouro do Médico do Ano em 1950 do Colégio Americano de Médicos do Tórax, bem como conduziu à criação da Sociedade Brasileira de Abreugrafia em 1957 e à publicação da “Revista Brasileira de Abreugrafia”.

Manoel de Abreu foi poeta, atividade pouco conhecida. Escreveu os livros de poesias “Substâncias” (fig.14) com ilustrações de Di Cavalcanti (fig.15); “Poemas sem Realidade”, ilustrado por ele e “Meditações”, ilustrado por Portinari (fig.16).

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Manoel de Abreu foi indicado cinco vezes indicado para o Prêmio Nobel de Medicina. Seus trabalhos e pesquisas levaram ao controle da doença no mundo, ao diagnóstico e tratamento precoces, a intervenções importantes no controle da saúde pública.

Fumante inveterado, faleceu de câncer de pulmão em 30 de abril de 1962 deixando ao mundo um legado de trabalho, dedicação e amor ao próximo, exemplo a ser sempre lembrado e seguido pelas novas gerações de médicos do planeta.

Manuel de Abreu foi responsável por evitar milhões de mortos por tuberculose no mundo inteiro, graças ao seu espírito incansável em prol da medicina. Lamentavelmente nenhum país do mundo, incluindo neste rol o Brasil, sua terra natal, emitiu selos em sua homenagem. No catálogo Zioni encontramos dois carimbos, um em 1974 (Zioni 2001) e outro em 1976 (Zioni 2406) em sua homenagem, contra quatro carimbos sobre a tuberculose respectivamente em 1953 (Zioni 389, fig.17), em 1963 (Zioni 951, fig.18), em 1999 (Zioni 6569, fig.19) e em 2002 (Zioni 7614, fig.20), todos enfatizando a luta contra a doença.

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Manoel de Abreu, um humanista generoso, abriu mão da patente que lhe garantiria lucros sobre a venda dos aparelhos, pois desejava que seu processo diagnóstico estivesse disponível para um número maior de pessoas: “Eu vejo no horizonte a única porta aberta para o futuro, a da ciência (…) A ciência é de algum modo a única forma de ternura (…) As grandes descobertas da medicina foram realizadas por seres sonhadores, sublimes, inspirados pelo amor”.

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Bibliografia:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-35862001000100010&script=sci_arttext
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Dias_de_Abreu
http://pt.wikipedia.org/wiki/Abreugrafia
http://lcfaco.blogspot.com.br/2013/10/abreugrafia.html
Catálogo Zioni de Carimbos Comemorativos do Brasil
Revista Ser Médico nº 69 ano XVII out/dez 2014 pag. 36-38, História da Medicina, Fátima
Lopes, CREMESP
Itazil Benício dos Santos, Vida e obra de Manoel de Abreu, o criador da abreugrafia, irmãos Pongetti editores, 1963
Imagens capturadas da internet através do site www.google.com