Recuperando Selos Auto-Adesivos – Parte I

Artigo publicado no Boletim da SPP nº 196 de abril/2006
Revisado em 15 de setembro de 2009.

HISTÓRICO

Quem não lembra com saudades do tempo do “gomeiro”, uma mesa com roldanas de borracha no seu tampo que passavam pela goma arábica para que colássemos os selos para aposição nas cartas? A cola evoluiu para a cola em pasta (Goyania), de resina (Tenaz) e as colas de bastão (Pritt). Nós, os filatelistas odiamos a cola de resina por motivos óbvios.

Os correios também evoluíram bastante. Os selos originalmente saiam das gráficas devidamente gomados. O Catálogo RHM de Selos do Brasil volume I faz uma referência ao acréscimo de valor de venda dos selos com a goma original do período do Império até 1890, mas exibe tres colunas em suas cotações somente para selos comemorativos a partir de 1900.

Acredito que a goma não era tão eficiente, pois molhar o selo na época do império implicava até em dissolver a imagem estampada, já que as tintas utilizadas não eram laváveis. Molhar o selo com a língua era uma prática nojenta, porém comum no início do século passado, daí surgirem os gomeiros para nos aliviar desta tarefa insossa de colar o selo na carta.

Tentando se livrar do gomeiro, o Correio do Brasil inaugura a fase do selo autoadesivo, facilitando o comércio de selos inclusive em banca de jornais e dispensando o saudoso gomeiro e a língua do missivista. O primeiro selo autoadesivo citado no Catálogo RHM de Selos do Brasil volume III é o emitido em 02 de abril de 1990: o Comprovante de Franqueamento para Registro Nacional e Selo de Registro Nacional SRN-1, composto de um lado por um  número que seria afixado à carta e de outro, afixado ao comprovante do remetente. Aí começam as nossas dores de cabeça.

IDENTIFICANDO O PROBLEMA

Os selos autoadesivos foram e são impressos em milhões de unidades, o que torna o seu valor financeiro dentro de uma coleção extremamente desprezível. Mas do ponto de vista filatélico ele não deixa de ser uma preciosidade, pois pode ser estudado, classificado e exibido dentro de vários contextos.

O problema é: como destacar, sem destruir, um selo autoadesivo circulado para inseri-lo em nossa coleção de selos ordinários usados? E quando um selo autoadesivo é colocado “artisticamente” sobre selos comemorativos em um envelope? O problema é libertar os selos dos envelopes: o nosso problema é a goma!

A SOLUÇÃO: LIBERTANDO OS SELOS

Solventes simples como a água não conseguem dissolver a goma; experimentei deixar fragmentos até 5 dias na água e consegui um gigantesco aminci no selo. A experiência com álcool também não consegue liberar o selo. A alternativa foi um solvente muito nosso conhecido: a benzina.

A tarefa é simples: – mergulhar o fragmento do envelope em benzina durante 3 a 5 minutos. Este é o tempo que a benzina leva para atravessar o selo de um lado e o fragmento do envelope de outro,- retirar delicadamente o selo com uma pinça,- colocar o selo sobre papel absorvente com a face voltada para o papel,- aguardar a secagem, que é rápida, já que a benzina evapora facilmente- talquear (colocar talco) no verso gomado do selo- o fragmento contendo os selos não gomados deve ser colocado em água para destacá-los

Até as emissões das Bandeiras autoadesivas (1993-94), o tipo de goma utilizado pelo correio dissolve mais facilmente na benzina, além do papel ser mais espesso mas é necessário talqueá-lo para inserir o selo na coleção. Nas emissões mais recentes a goma é mais aderente, o selo em papel mais fino, continua tentando aderir a outras superfícies.

Lembrando que a ferrugem que acomete os selos é um fungo dependente de calor e umidade, optei por talquear os selos com polvilho antisséptico ou talcos antimicóticos. Dentro de 5 a 10 anos vamos descobrir nos selos guardados se o medicamento também funciona como preventivo de ferrugem.

A MANUTENÇÃO DA COR

O quesito cor é um dos mais importantes em filatelia; basta olharmos a imensa variação de selos catalogados com variações de cor, chegando aos limites da imaginação na classificação da série bisneta. Nas últimas décadas os Correios primam pela qualidade e não existe praticamente variação de cor nos selos. A benzina é um poderoso solvente, mas que não venceu a qualidade dos selos autoadesivos. Fiz o comparativo de cores com outros exemplares não circulados e circulados em fragmentos e envelopes com os selos destacados na benzina, e não houve variação da cor, ou seja, a benzina não dissolve a tinta utilizada na emissão dos selos autoadesivos.

EXEMPLOS

No meu melhor exemplo, ganhei um fragmento contendo dois selos retirados de dois blocos de 2004 da Capela de São Miguel Arcanjo. (Fig. 1). O fragmento é mergulhado na benzina (Fig. 2) e após, destacado suavemente com uma pinça (Fig.3). A seguir, o fragmento com os selos do bloco são colocados em água para serem destacados também (Fig.4).

Outro exemplo é um fragmento com 7 selos autoadesivos (Fig.5). O processo é o mesmo, deixando os selos secarem após serem destacados com a pinça (Fig.6). Os selos continuam aderindo a qualquer superfície (Fig.7), e é necessário talqueá-los (Fig.8).

Montar coleções com selos autoadesivos me permitiu admirar as mais belas folhas dos meus álbuns. Pelo número incrivelmente grande de selos emitidos e utilizados podemos montar as folhas do Álbum Tafisa com selos usados selecionados a custo zero e sem remorso por estarmos desprezando um carimbo ilegível, e com o prazer que somente um filatelista pode desfrutar.

Mãos à obra e bom divertimento!

Roberto Antonio Aniche
Membro da SPP – Sociedade Philatélica Paulista
Membro da Sobrames – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores

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2 comentários em “Recuperando Selos Auto-Adesivos – Parte I”

  1. Boa tarde, prezado e ilustre amigo Roberto Antonio Aniche. Muito obrigado pelas suas preciosas dicas para desgrudar os selos dos fragmentos de papel. Sou jornalista aposentado, um pequeno colecionador de selos e resido na cidade de União da Vitória, Estado do Paraná. Um abraço cordial a você e aos seus queridos familiares.

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