O Espiritismo e a Imprensa Espírita no Brasil

Boletim Filacap nº 182 – Agosto/2014

Não há como falar de Imprensa Espírita no Brasil sem antes discorrermos sobre a entrada no Kardecismo em nosso país. O Brasil oitocentista, imperial, católico por conviccção e por lei, com economia nitidamente ruralista começava a sentir os efeitos das mudanças sociais, filosóficas e políticas nascentes na Europa.

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Quadra com carimbo comemorativo ao Centenário de Augusto Comte

As ideias novas, trazidas pelo Positivismo de Augusto Comte, (fig.1) mostravam um Brasil atrasado em relação aos ideais da Revolução Francesa terminada mais de um século antes, em 1799. Liberdade, Igualdade e Fraternidade, lema que derrubou a Monarquia Absolutista, os privilégios feudais e aristocráticos estavam longe de aportarem em nossa terra.

As ideias trazidas da Europa, notadamente Paris, pela emergente aristocracia brasileira surgida com a independência do Brasil e principalmente no Segundo Reinado, para uma sociedade ambiciosa de curiosidade (e de mudanças?) aponta para todos os lados: sociais, políticos, filosóficos e religiosos.

O Kardecismo, doutrina codificada por Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail, Lyon, 3 de outubro de 1804 — Paris, 31 de março de 1869) traz uma série de orientações vindas dos espíritos, não como religião ou concorrente de qualquer uma delas, mas como estudo filosófico, científico e também religioso baseado nos Evangelhos Cristãos. Circulado na França a Revista Espírita (periódico de estudos psicológicos), publicada mensalmente de 1 de janeiro de 1858 a 1869 por Allan Kardec atua como divulgador da doutrina e das pesquisas feitas nesta área (fig.2).

Afirma-se que a história do espiritismo no Brasil remonta ao ano de 1845 quando, no então distrito de Mata de São João, na então Província da Bahia, teriam sido registradas as primeiras manifestações. De acordo com Divaldo Pereira Franco o ano teria sido 1849, tendo se caracterizado por um confronto entre elementos da Igreja Católica e espíritas, com a interveniência de força policial. O fenômeno das mesas girantes foi noticiado pela primeira vez no país pelo jornal “O Cearense” em 1853.

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Nomes de relevo também se opuseram ao espiritismo no Brasil, dentre eles podemos citar Olavo Bilac (fig.3) e Machado de Assis (fig.4) . Ambos repudiavam a doutrina como sendo

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Olavo Bilac

portadoras de teses absurdas, sem fundamentação plausível. Somadas às condições adversas, o estudo dos textos básicos do espiritismo era circunscrito aos homens letrados, muitos deles oriundos de famílias ilustres, que tinha na França o destino preferido para a formação estudantil, aproximando-os do que havia de mais inovador, tanto em termos religiosos, como científicos. Os filhos da elite agrária que cresceram no âmbito rural

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Machado de Assis

e na mocidade se mudaram para cidades cresceu acentuadamente na segunda metade do século XIX. Eles buscavam o contato com as concepções modernizantes importadas da Europa, deixando para trás o ambiente rural que ainda era presente.

Para termos dimensão das contendas entre Igreja Católica e Kardecismo, podemos citar dois acontecimentos marcantes. O primeiro deles é a carta que foi enviada ao Arcebispo da Bahia, D. Manuel Joaquim da Silveira, por Manoel da Silva Pereira, ex-major do exército. A carta criticava os ensinamentos espíritas que estavam sendo publicados pelo jornalista baiano, Luiz Olympio Telles de Menezes (fig.5) em Salvador. A segunda contenda foi estabelecida pelo Padre Juliano José de Miranda, da província da Bahia, o qual escreveu para o próprio Telles de Menezes, mostrando sua contrariedade aos princípios doutrinários do espiritismo.

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Como forma de rebater as críticas, Telles de Menezes, pioneiro nas publicações espíritas, respondeu criando o jornal O Écho d’Além Túmulo (fig.6), periódico que iniciou suas atividades em 1869 e visava defender “[…] a verdadeira ciência, capaz de aproximar o homem de Deus” (Ó Écho D’além Túmulo, jul. 1869, n. 1, p. 1).

06O primeiro jornal espírita impresso e publicado no Brasil foi O Écho d’Além Túmulo: monitor do Spiritismo no Brasil (fig.6) . Datado de 1869, o jornal era impresso na Tipografia do Diário da Bahia, em Salvador. As “Condições d’a assignatura” eram especificadas na página do próprio jornal, na qual se podia ler que “O Echo d’Além Túmulo apparece, bimestralmente, em um folheto, in-8, contendo 50 páginas de impressão […] o pagamento deve ser sempre adiantado, para não haver interrupção na entrega”.

O Écho d’Além Túmulo circulou até março de 1870, contudo deixou para a imprensa espírita brasileira o legado de ter sido o pioneiro de um tipo de editoração que assumiria

proporções expressivas, estendendo-se até nossos dias.

A seguir temos a comentar “A Revista da Sociedade Acadêmica Deus, Christo e Caridade” que pretendia ser o órgão oficial de divulgação dos “estudos e trabalhos” realizados em seu âmbito, bem como reunir outras entidades espíritas do período. Além disso, o periódico divulgava as decisões administrativas da organização que a idealizou. No frontispício do primeiro número publicado constava a seguinte informação:

A Revista, órgão official da Sociedade, redigida por sua Directoria, tem por fim preencher as vistas sociais, levando aos seus Membros o conhecimento das resoluções e deliberações administrativas e transmittindo o resultado dos estudos e trabalhos da Academia Spiritia de Sciencias. Será distribuída nos círculos ate o ultimo dia do mez (Revista da Sociedade…, jan. 1881, front.).”

A circulação do periódico era mensal e o último número do periódico ocorreu em de julho de 1882, quando a Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, sua mantenedora, vivenciava uma crise por falta de adeptos, que requeriam outra instituição menos restrita e que pudessem representar todos os Espíritas, dando abertura para a Federação Espírita Brasileira, consolidada em 1884.

Em reunião promovida por Elias da Silva, a 1 de janeiro de 1884, fundou-se a Federação Espírita Brasileira. No dia seguinte (2 de janeiro) foi eleita e empossada a sua primeira Diretoria, A instituição ficou inicialmente sediada na própria residência de Elias da Silva, o sobrado à rua da Carioca, 120.

07Nos seus anos iniciais, a FEB (fig.7, Zioni 3814) vivenciou diversas dificuldades quer de ordem administrativo-financeira quer ideológica no plano interno, e as turbulências políticas e sociais da Capital do país no plano externo. Como exemplo das primeiras, registrava-se uma cisão no movimento, entre os chamados “laicos” ou “científicos”, liderados pelo professor Afonso Angeli Torteroli; e os “místicos”, liderados por Bezerra de Menezes. Como exemplo das segundas, após a Abolição da Escravatura (1888) sucedeu-se a Proclamação da República Brasileira (1889) e as comoções vividas pela República da Espada, entre as quais a Segunda Revolta da Armada (1893). Tais circunstâncias resultaram no abandono da FEB por grande parte dos seus membros iniciais, deixando a sobrevivência da instituição a cargo de alguns poucos colaboradores.

08Em 1889, o médico Dr. Adolfo Bezerra de Menezes (fig.8, Zioni 3560) assume à frente da instituição, instituindo o estudo sistematizado de O Livro dos Espíritos nas reuniões públicas realizadas no salão da Federação. Em 1890 foi instituído o “Serviço de Assistência aos Necessitados”, importante base para a atuação dos médiuns receitistas na instituição. Bezerra foi sucedido no início de 1895 por Júlio César Leal. Vindo este a renunciar após sete meses de gestão, Bezerra aceitou ser reconduzido, reassumindo a Presidência da Federação a 3 de agosto de 1895, cargo que exerceu até à sua morte em 1900. Durante este mandato, foi inaugurada a livraria da FEB (31 de março de 1897), responsável pela edição, distribuição e divulgação da literatura espírita.

Em 1932, a FEB publicou o seu primeiro grande sucesso editorial: o “Parnaso de Além-Túmulo”, que alcançou grande repercussão junto à imprensa e à opinião pública brasileira. O formato da obra não era novo: seguia os moldes de outra obra cujos direitos a instituição já possuía – Do País da Luz (4 vol.) -, coletânea de mensagens (textos, cartas e poemas) majoritariamente de autores renomados da literatura portuguesa, desencarnados, recebidos na primeira década do século XX pelo médium português Fernando de Lacerda. A autoria dos textos no Parnaso, recebidos pela mediunidade psicográfica do então jovem Francisco Cândido Xavier era predominantemente de figuras da literatura brasileira.

Às vésperas da implantação do Estado Novo, em 1937, no dia 27 de outubro, as dependências da FEB foram fechadas pela polícia, vindo as suas portas a ser reabertas três dias mais tarde, por determinação do Dr. Macedo Soares, então Ministro da Justiça.

O período seria marcado, ainda, pela abertura, em 1944, do famoso processo movido pela viúva do escritor Humberto de Campos contra a FEB e Francisco Cândido Xavier (fig.9), visando receber direitos autorais pretendidos sobre as mensagens psicografadas supostamente atribuídas ao seu finado marido. A partir de então, a entidade passaria a se utilizar do pseudônimo “Irmão X”.

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Neste ponto que chegamos, o Kardecismo é uma doutrina atuante no Brasil, assim como diversos cultos Cristãos; o país se tornou, com sua legislação atualizada, tolerante com todos as religiões e vertentes filosóficas e sociais, numa tentativa de, após mais de dois séculos, absorver os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade da Revolução Francesa.

Bibliografia:
IMPRENSA ESPÍRITA E ELITE LETRADA NO BRASIL OITOCENTISTA, 2013
Alessandro Santos da Rocha, Universidade Estadual de Maringá – UEM
Cézar de Alencar Arnaut de Toledo, Universidade Estadual de Maringá – UEM
Intelectuais, Espíritas e Abolição da Escravidão: Os Projetos de Reforma na Imprensa Espírita 1867-1888)
Daniel Simões do Valle, Universidade Federal Fluminense, Defesa de Tese de Mestrado, 2010
www.girafamania.com.br
http://www.wikipedia.org

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