Os Selos de Taxa da Ferrovia de Hedjaz, Império Turco-Otomano

Publicado no Boletim Filacap – Edição Especial ano 39 de junho de 2013

A HISTÓRIA

A Estrada de Ferro de Hedjaz (ou Hejaz) foi sugerida em 1864, e construída no período entre 011900 e 1908, com a finalidade de facilitar as peregrinações aos locais sagrados muçulmanos, mas estrategicamente para fortalecer o domínio otomano em províncias distantes, bem como uma via economicamente forte para as finanças do Império.

A obra foi autorizada por Sua Majestade Imperial, o Sultão do Império Otomano Abdulhamid II, 34º sultão do Império, o último que o governou com poder absoluto, também conhecido como Ulu Hakan , o Grande Khan e também como Kizil Sultan, o Sultão Vermelho (fig. 1). Foi deposto em 1909 na Jovem Revolução Turca.

O trajeto principal, de Damasco a Medina (a ferrovia nunca chegou a Meca) tinha 1.320 quilômetros, passando pela Transjordânia e noroeste da Arábia, para a região de Hedjaz, onde se situam Medina e Meca.

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A ferrovia substituiu as antigas rotas de caravanas (cujas viagens de ida e volta a Damasco levavam quatro meses), criando um novo inimigo ao Império. Foram necessários 5.000 soldados otomanos para construir, manter e guardar a ferrovia, sob a orientação do engenheiro alemão Heinrich Augusto Meissner. A construção encontrou inúmeras dificuldades: tribos hostis e imprevisíveis, terreno difícil, rochoso ou arenoso, calor extremo, pó e tempestades de areia, e às vezes inundações repentinas por tempestades torrenciais que destruíam as linhas e pontes. 

Ao mesmo tempo foi iniciada a construção da Estrada de Ferro Berlim-Bagdá, e as duas estradas se interrelacionariam. A outra intenção da construção da ferrovia seria a de proteger Hejaz e outras províncias árabes da invasão britânica.

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Fig. 3

Concluída em 1908, transportava em 1914 cerca de 300.000 passageiros por ano (fig. 3), mas não somente peregrinos. A estação foi inaugurada em 1908, aniversário da ascensão do Sultão Abdulhamid II ao poder, mas a principal estação, a de Hedjaz (fig. 4) em Damasco iniciou suas operações em 1913, sendo o ponto inicial para Medina. Na Primeira Grande Guerra a Turquia transportava tropas e mantimentos, havendo inúmeras tentativas para desmantelar a linha para impedir a ofensiva do exército turco. O ramal entre a Jordânia (Ma´an) e Medina sofreu danos irreparáveis por sabotagem, principalmente pela estratégia militar inglesa por T.E.Lawrence (fig. 5) , que junto com as forças árabes descarrilhou comboios e locomotivas que transportavam tropas turcas (fig. 6).

No final da primeira guerra, as linhas em funcionamento foram controladas pelos respectivos governos da Síria, Palestina e Transjordânia, servindo principalmente como atração turística.

O FINANCIAMENTO

Foi aberta uma subscrição no mundo Islâmico para a constituição de fundos para a sua construção. A obra foi um grande desafio econômico e de engenharia, com custo estimado em 4 milhões de liras, sendo aberta uma subscrição para todas as nações e autoridades islâmicas. Donativos da Índia e do Egito causaram protestos do governo britânico, mas também houve subscrições do Marrocos, Rússia, China, Singapura, Holanda, Irã, África do Sul, Américas. Foram distribuídas moedas de bronze, prata e ouro a autoridades que fizeram suas contribuições.

IMPOSTOS POR SELOS FISCAIS

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Fig 7

Após as doações, os impostos cobrados por selos fiscais chegaram a 22% do orçamento. Foram emitidos inúmeros tipos de selos fiscais, utilizados em documentos (fig. 7), passaportes, recibos e em correspondência (fig. 8 a 12), apesar de não temos encontrado nenhum envelope com estes selos, mas somente fragmentos com carimbos obliteradores postais.

A grande maioria dos selos tem aposto sobrecarga vermelha ou preta e até manuscrita, sempre com referência ao Sultão (tughra, marca do Sultão) da época ou alusivas à construção da ferrovia e mesmo com alterações de valores de taxas (ocorrência muito comum). Também foram usados em 1917 na cidade de Adana e distritos como taxa de cigarros de papel.

 

USOS DIVERSOS DOS SELOS DA FERROVIA DE HEDJAZ

Os selos foram utilizados pelos governos do Império Otomano, e após a sua queda pelo Governo Turco, além de outros países estrangeiros em ocupação no território otomano:

  • selos fiscais da Ferrovia de Hedjaz usados normalmente com sobrecarga
  • selos fiscais otomanos com sobrecarga do Grande Assembleia Nacional Turca
  • emissão provisória na Guerra da Independência Turca
  • ocupações estrangeiras

13Das ocupações destacamos a Ocupação Italiana nas ilhas do Egeu e como títulos da dívida pública otomana (sobrecarga “Debito Publlico Ottomana”); ocupação grega na Anatólia, Ilha de Rodes e Europa Otomana; ocupação britânica na Mesopotâmia (Iraque), ocupação francesa na Síria e Líbano (fig. 13).

FINALMENTE

Selos de sobretaxa tem sido utilizados em correspondência em diversos países, quer como taxas de guerra (war tax), para benfeitorias (Brasil, taxa pró-aeroportos), saúde (Brasil, série Hansen) e para outras finalidades.

O estudo da história da Ferrovia de Hedjaz é muito interessante e cheio de desfechos, mas o grande desafio é o estudo filatélico, quando selos fiscais são utilizados para donativos e subvenções, verdadeiro desafio para o filatelista, quer pela pouca literatura disponível, quer pela dificuldade das línguas faladas no oriente. Há muito que se procurar, investigar, estudar e principalmente corrigir os erros que certamente virão nesta coleção, uma história cheia de segredos de uma ferrovia que já completou 100 anos. (fig. 14)

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Bibliografia:

Ottoman Turkish Empire, Revenue Stamps of the Hejaz Railway, issued between 1904 and 1918, Steve Jacques, 2012
Wikipedia, diversas páginas
Imagens: internet, ebay, delcampe

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