Publicado no Boletim Filacap nº 168 ano 36 de dezembro de 2010
Os caracteres árabes são uma das formas mais difíceis de se interpretar em selos do oriente médio, principalmente se estivermos estudando o período em que não haviam caracteres latinos impressos para fácil identificação da origem e data de sua emissão.
Um detalhe interessante nos selos da Turquia é a “tougra”, ou assinatura do sultanato. Trata-se de um estilo de caligrafia impossível de ser imitado, na época utilizado por pessoas importantes. Neste método, as primeiras letras da assinatura são particularmente maiores do que as outras, formando uma base, às vezes projetando as últimas letras do nome.
Este método caligráfico muitas vezes “desenha” formas humanas, de animais ou plantas e coloca em seu interior uma assinatura ou uma mensagem. (fig.1)
O primeiro selo turco, de 1863 (Yvert 2, Scott 1) apresenta uma “tougra” simples utilizada apenas nesta série. Este é o símbolo do Sultão Mahmoud Khan, ou Mahmud II (1808-1839) que trocou as antigas instituições do Império Otomano por modelos importados do Ocidente e foi desenhado (caligrafado) em 1808 por Moustafá Raquim. (Fig. 2 e 3)
Em 1901, na série de selos para correspondência para o exterior, surge uma outra tougra” com o acréscimo de outra assinatura à sua direita (Fig 4). Esta assinatura à direita é do grande Sultão e Califa Abdülhamid, o El-Ghazi, o conquistador (Fig. 5), governando até 1909 e morto em 1918. Seu sucessor, Mehmet V (ou Mehmed V, ou Mohammed V, Fig 6) retira sua assinatura, voltando ao símbolo do califado e governando até 1918, sendo sucedido por Mehmet VI.
Assim em 1920 a série Yvert 617 a 625 utiliza os selos de 1913 e 1914 (Yvert 179-191 Fig.7) retorna com a utilização da primeira, aquela dos selos de 1863. É muito fácil confundir estes selos já que os desenhos, cores e valores são os mesmos, ficando a diferença apenas na tal assinatura do sultão.
Em diversos selos reutilizados neste período é utilizada uma sobrecarga com a “tougra” sem a assinatura à direita de El-Ghazi. (Fig 8)
Interessante observar que o líder Mustafá Kemal, o Ataturk em 1917 (Fig. 9) cria um exército de resistência nacional, desembarcando na cidade de Samsum em 19 de maio de 1919. Cria um governo provisório, inclusive com aliados do próprio governo aumentando a oposição ao sultanato.
Em 1923 instala a República Turca, abolindo o regime de sultanato então vigente. Implanta o estado laico, permitindo apenas o poder espiritual com o califado. Em março de 1924 abole definitivamente o sultanato. O símbolo somente aparece novamente em uma série de “selos sobre selos” comemorando o centenário do selo turco (Yvert 1634-1637, Fig.10).
Este artigo nos mostra a dificuldade em se classificar os selos Turcos e a necessidade de compreendermos a história de qualquer país que nos aventuremos a colecionar. Além de encontrarmos esta diferença de assinatura dos selos citados, as “tougras” também mostram diferenças sutis na sua grafia. Pequenas modificações, imperceptíveis a olho nu revelam nestes selos muito de sua história indicando a assinatura do sultão daquela época. A dificuldade em se classificar os selos da Turquia torna esta coleção um desafio para o filatelista, dentro de uma parte fascinante da história da transição do Império Otomano para a moderna República da Turquia.
Publicado no Boletim Filacap nº 166 ano 36 de maio de 2010
A Turquia é um país continental constituído por uma pequena parte europeia, a Trácia, e uma grande parte asiática, a Anatólia, sendo uma república democrática, secular e constitucional, com sistema político estabelecido em 1923 com o final do Império Otomano decretado com a derrota deste na Primeira Guerra Mundial.
O Império Otomano teve sua formação iniciada em 1299 quando o califa Osman I (em árabe: hutmãn, de onde vem o termo otomano) conquista parte da Anatólia e termina em 1922, quando perde na Primeira Guerra Mundial.
Yvert nº 1
O primeiro selo da Turquia surge em 1859, ou seja, ainda na fase de Império Otomano, para liberar cartas a bordo dos navios da marinha, com seus valores escritos à mão, emitidos na cor carmim. Em 1868 surge novo modelo para as cartas entregues à Companhia de Barcos a Vapor “Asia Minor Steam Ship Company”, de Smirna, cidade na costa do Mar Egeu, que em 1415 tornou-se parte do Império Otomano.
O selo número 1 e suas variedades (Yvert 1, 1A e 1B) emitidos
Variedades
com 9 anos de diferença e utilizados em navios diferentes contém caracteres ocidentais, no mínimo estranho para um Império cujo relacionamento com o mundo vinha de 500 anos de guerras e conquistas. A utilização foi feita em navios mercantes e eram selados no próprio navio ou entreposto comercial o que sugere que os selos eram emitidos e comercializados pelas empresas proprietárias dos navios. Estes selos aparecem no Catálogo Yvert, mas não são mencionados no Catálogo Scott.
Em 1863 surge um selo escrito em caracteres árabes, em diversos valores e cores, (Yvert 2 a 6), considerado por muitos filatelistas como realmente o primeiro selo do correio turco. Somente em 1876 surgem os primeiros selos com caracteres árabes e ocidentais (Yvert 44 a 49) com o nome do país (Emp.Otoman) e o valor e moeda. Existe, a partir deste momento uma miscelânea que ora coloca apenas o algarismo do valor e a moeda, ora o país e valor e moeda.
Yvert nº 44AYvert nº 2
Em primeiro de novembro de 1922, a Grande Assembléia Nacional Turca aboliu o sultanato, pondo fim a 631 anos de domínio otomano. Em 1923 o Tratado de Lausanne reconheceu a soberania da nova República da Turquia. Mustafá Kemal Pacha, que seria conhecido como Kemal Ataturk (“pai dos turcos”) tornou-se seu primeiro presidente, instituindo grandes reformas políticas.
Yvert 687
O primeiro de centenas de selos com a efígie de Kemal Ataturk é o Yvert 687, de uma série de 8 valores, comemorando o acordo de paz com a Grécia. O selo mostra a imagem de Ataturk e a ponte de Sakaria. O Rio Sakaria é o terceiro maior rio da Turquia, com 824 km de extensão.
Yvert 662
A reforma em 1923 tornou a República Turca um estado laico, tornando livre o culto religioso e adotando o alfabeto ocidental. Mesmo assim, os primeiros selos da república, de 1923 (Yvert 662 a 667, Parlamento Turco em Ankara), contém somente caracteres árabes.
Yvert 670
Interessante notar que novamente o Catálogo Scott não faz menção a esta série, considerando como primeiro selo da República Turca o de número 668 do Yvert, uma série que vai de 668 a 686, emitida de 1923 a 1925. Os selos Yvert 662-667 constam no Catálogo Scott como sendo emitidos na Anatólia em 1922 (Turquia asiática).
Finalmente em 1929 surgem os primeiros selos obedecendo as reformas
Yvert 746
(Yvert 744 a 749 em diante), que exibem somente caracteres ocidentais: “Turkiye Cummuriyeti”, “Posta”, “Postalari”, e já trazendo a indicação nos selos comemorativos do seu motivo de emissão.
Yvert 749
As emissões a partir daí tornam-se regulares, com os selos servindo unicamente a seu propósito: portear cartas, com selos emitidos separadamente para o correio aéreo, o correio marítimo, selos beneficientes (Crescente Vermelho), selos de taxas, selos para jornais, blocos e folhinhas, etc., diferente do que acontecia anteriormente, quando os selos ganhavam diversas sobretaxas para mudarem de utilidade e serviço.
A Revolta Paulista de 1924, também chamada de ‘Revolução Esquecida’ foi
Fig.1 Gal Isidoro Dias Lopes
a segunda revolta tenentista, o maior conflito bélico já ocorrido na cidade de São Paulo. Comandada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes (fig.1) contou com a participação de vários tenentes, dentre os quais Joaquim do Nascimento Fernandes Távora (que faleceu na revolta), Juarez Távora, Miguel Costa, Eduardo Gomes, Índio do Brasil e João Cabanas.
Deflagrada na capital paulista em 5 de julho de 1924, (a data do início do conflito em São Paulo foi escolhida para homenagear o primeiro levante tenentista, ocorrido exatamente dois anos antes no Rio de Janeiro, no episódio conhecido como a Revolta de 1922), foi o primeiro movimento militar armado que pregava o fim do monopólio das oligarquias paulistas e mineiras no poder e questionavam a vitória do mineiro Arthur Bernardes (fig.2) nas eleições presidenciais de 1922.
A Revolta de 1922 (Primeira Revolta Tenentista) serviu para mostrar o descontentamento de militares com a política do País. Em 1924, a revolução que se ergueu em São Paulo começou a desenhar um projeto político tenentista mais claro. Em sua lista de demandas, além da deposição do Presidente da República, estavam um conjunto de reformas políticas que visavam a moralização do sistema político. Pediam maior independência do Legislativo e do Judiciário, limitações para o Poder Executivo, o fim do voto de cabresto, a adoção do voto secreto e a instauração do ensino público obrigatório.
Na data de 5 de julho de 1924 a cidade vive uma das maiores batalhas travadas em solo urbano da América Latina (fig. 03). Este episódio sangrento deixa quase 2.000 prédios destruidos, 503 mortos, 4864 feridos (dois terços eram civis) e o êxodo de cerca de 300.000 moradores da capital, que à época tinha 700.000 habitantes. Campinas recebeu aproximadamente 50.000 refugiados.
As tropas rebeldes do exército se aliaram à Força Pública Estadual (hoje Polícia Militar), convertendo-se num verdadeiro exército regional, com artilharia e aviação, atacando alvos civis. As bombas, já no primeiro dia, atingiram o Mosteiro de São Bento (fig. 4) , o Liceu Coração de Jesus (fig. 5) e inúmeras residências.
Fig.5 Liceu Coração de Jesus
A liderança do exército tenentista era ocupada pelos irmãos Joaquim e Juarez Távora, Eduardo Gomes e Custódio de Melo entre outros, e todos haviam participado do levante dos 18 do Forte de Copacabana (fig. 6), dois anos antes, com o intuito de derrubar o então presidente da república Arthur Bernardes. Vencidos na capital federal, vieram fugitivos para São Paulo, aqui se reorganizando com nomes falsos, juntando-se aqui com o major fiscal da Força Pública Miguel Costa.
Os rebeldes tomaram pontos estratégicos da cidade, como os quartéis da Luz, as estações da Luz (fig. 7) e Sorocabana e os correios (fig. 8), enquanto atacavam a casa do Presidente Carlos de Campos (assim eram chamados na época os governadores dos estados). Carlos de Campos (fig. 9) empreende fuga para os baixos da Penha, na zona leste, nas regiões da Rua Guaiaúna (o local era a Estação de um ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil (fig. 10), que posteriormente o nome alterado para Estação Carlos de Campos, desativada hoje por conta da linha do Metrô de São Paulo).
De acordo com o historiador Moacir Assunção, no início do ataque veio a paralisia da capital, sem esboçar reação vigorosa ao ataque dos tenentistas. Com a fuga do Presidente Carlos de Campos veio a acefalia. O plano dos tenentes, tomar rapidamente a cidade de São Paulo e embarcar as tropas para o Rio de Janeiro para depor Arthur Bernardes não se concluiu. Carlos de Campos, de seu refúgio no entroncamento da Central do Brasil, com o apoio do Ministro da Guerra Setembrino de Carvalho reuniu 18 mil homens, canhões com alcance de 11 quilômetros e tanques franceses (arma jamais usada no Brasil) e aviões bombardeiros Breguet. Seis dias após a revolta todo este exército entrou em ação saindo da inanidade para o confronto.
Naquela semana as tropas da Marinha destruíram o quartel general rebelde instalado na Avenida Tiradentes (hoje Quartel da Rota, Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar). A Igreja da Glória, no Cambuci (fig. 11), ocupada pelos rebeldes na Rua Lavapés, foi praticamente destroçada.
Fig. 11 Igreja da Glória
O governo federal com a cumplicidade do estadual, usava pra combater a revolta o método de ataque conhecido como “bombardeio terrificante” em que os tiros são disparados a esmo, sem destino, para fazer a população se revoltar contra os tenentistas. Este método havia sido utilizado pelos alemães na Primeira Guerra Mundial contra os franceses e belgas sendo condenado pelo mundo civilizado. Aqui o Estado utilizou este método maldito contra a própria população, ferindo, mutilando ou matando civis sem qualquer relação com a revolta.
Fig.12 Igreja da Penha
As tropas legalistas colocaram seus canhões no Pátio da Igreja da Penha (fig. 12) e nas colunas da Vila Matilde atirando sem parar, mirando fábricas como o Cotonifício Crespi (fig. 13) (Moóca), Duchen e a Antárctica além de residências, aonde famílias inteiras pereceram. Com medo de que a população pobre aderisse ao movimento foram bombardeados os cortiços da região do Tamanduateí na Várzea do Carmo (hoje Parque Dom Pedro), aonde haviam se instalado operários imigrantes espanhóis e italianos.
Escasseando os alimentos, a população remanescente passou a saquear lojas e mercados (como o Mercado Municipal da Rua
Fig. 13 Armazem PuglisiFig. 14 Mercado Municipal
25 de Março (fig. 14), os armazéns Puglisi e Gamba na Moóca e os Armazéns Matarazzo no largo do Arouche), e alimentar-se de pombos e ratos.
O movimento também adentrou a inúmeras cidades do interior paulista, tomando prefeituras, vandalizando, saqueando, matando e violentando a população. A “Coluna da Morte” era comandada pelo Tenente João Cabanas (fig. 15), comandante do grupo de revoltosos.
Fig15 Tenente João Cabanas
Uma comissão do estado negociou com o governo federal uma “intervenção caridosa” no estado de São Paulo, pedindo para que os bombardeios aos civis fossem cessados. Mas em 26 de julho os aviões governamentais jogaram panfletos orientando os habitantes da capital a abandonarem suas casas, pois a cidade seria bombardeada mais drasticamente. Mas não havia para onde fugir, já que as saídas da cidade estavam fechadas, e sequer os mortos podiam ser enterrados por força dos bombardeios.
No dia 28 de julho os revoltosos embarcaram em 11 trens de carga para Bauru, com 3500 homens, cavalos, artilharia e alimentos. No mesmo dia Carlos de Campos retornou ao Palácio dos Campos Elíseos. Era o final da revolução de 1924.
Sem poderio militar equivalente para enfrentar as tropas legalistas, os rebeldes retiraram-se para Bauru, reorganizando-se para atacar o exército legalista se concentrava na cidade de Três Lagoas, no atual Mato Grosso do Sul. A derrota em Três Lagoas, no entanto, foi a maior derrota de toda esta revolta. Um terço das tropas revoltosas morreu, feriram-se gravemente, ou foram capturadas.
Fig.16 Luís Carlos Prestes
Os rebeldes, refugiados em Foz do Iguaçu, no Paraná, juntaram-se a tropas vindas do Sul comandadas por Luís Carlos Prestes (fig. 16), formando a Coluna Prestes (fig. 17), maior movimento terrorista que o país já conheceu, que percorreu 25.000 quilômetros no Basil enfrentando forças federais.
Fig. 17 Coluna Prestes
Notas:
O fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843-1928) é um dos grandes responsáveis pelo conhecimento iconográfico do início do século XX que temos de São Paulo. Gaensly fotografou o que pode ser chamada de a “belle époque” paulistana: seus casarões, edifícios públicos, o apogeu dos barões do café e a reurbanização que eliminava os resquícios coloniais da cidade.
Fig. 5 – Gaensly – Postal n. 16, mostra o Liceu Sagrado Coração de Jesus, na região da Luz / Campos Elíseos.
Fig. 8 – Gaensly – Postal n. 14, vista do Correio Geral. Esse prédio do correio ficava no Largo do Palácio (Pátio do Colégio, onde hoje se encontra o edifício do Tribunal de Justiça). O torreão ao fundo é da Casa Paiva, que aparece também nos postais anteriores.
Fig. 10 – Estação de Trem Carlos de Campos, da Estrada de Ferro Central do Brasil, hoje Rede Ferroviária Federal, desativada em 2008 em virtude do Metrô de São Paulo ter construído a Estação Penha vizinha dela.
Fig. 11 – Igreja da Glória, Cambuci, SP atacada por tropas legalistas.
Publicado no Boletim Filaap nº 184 ano 41 de fevereiro de 2015
HISTÓRICO
Os selos da Liga Naval Otomana foram emitidos em 1914 para serem utilizados como contribuição voluntária para a Associação da Marinha Otomana, em valores de (em “paras”, moeda do Império Otomano da época): 1 (laranja), 2 (azul escuro), 5 (verde), 10 (marrom) e 40 (marrom avermelhado). Os selos retratavam navios de guerra: os de 1 e 40 paras um destroier, os de 2 e 5 paras um barco torpedeiro e o 10 paras um cruzador blindado (fig.1). Não serviam para portear correspondências até 1921 quando receberam sobrecarga, mas eram vendidos apenas em benefício dos marinheiros da frota otomana.
A emissão destes selos tem inúmeras variedades, por falta de cuidados e de experiência na impressão. Existe sobrecarga invertida no selo de 5 paras, verde (fig.2). Há erros de data da sobrecarga descritos em selos de todos os valores: 2337 ao invés de 1337 (em árabe, vide tabela ao final do artigo). Os selos de 1, 2 e 5 paras com sobrecarga não estavam de acordo com a tarifa postal vigente e muito provavelmente foram inúteis para o fim postal a que se destinavam.
CLASSIFICAÇÃO
No Catálogo de Selos Fiscais do Império Otomano (Revenue Stamps of Ottoman Empire) encontramos os selos sob números 4958 a 4962. Também são citados na mesma publicação os ensaios de cor para a série original:
com denteação para os selos de 40 paras nas cores verde, violeta e azul escuro (4963 a 4965), para a série completa, mas sem denteação nas cores:
marrom (4966 a 4970),
laranja (4971 a 4975),
verde escuro (4976 a 4980),
amarelo (4981 a 4985),
esmeralda (4986 a 4990) (fig. 3),
azul escuro (4991 a 4995),
verde oliva (4996 a 5000),
preto (5001 a 5005),
rosa (5006 a 5010) e
marrom escuro (5011 a 5015).
SOBRECARGAS
Em 1915 quase todos os selos da Liga Naval Otomana, menos os de 40 paras receberam outra sobrecarga com a inscrição em vermelho: “para ajuda ao imigrante” convertendo-se assim em selos fiscais (5 piastras no selo laranja de 1 para) (fig. 4). Lembramos que nesta época o mundo assistia à Primeira Guerra Mundial, com grande deslocamento de populações fugindo dos teatros de batalhas.
Em 1916 o selo de 1 pa (laranja) recebeu uma sobrecarga em preto: “paras 5 paras” para contribuição da “taxa do querosene” (fig. 5). Não encontramos nenhuma referência a esta taxa no Catálogo de Selos Fiscais da Império Otomano.
Em 1921, por conta da falta de selos postais disponíveis, o Governo de Ankara se apropriou dos selos da Associação da Marinha Otomana na Anatólia, inseriu uma sobrecarga e os selos passaram a ser utilizados no franqueamento de correspondências (fig. 6). Estes selos com sobrecarga para uso postal constam no Catálogo Especializado Isfila com a numeração de 1042 a 1046; no Catálogo Scott os selos recebem a numeração 59 a 63 no capítulo Turquia na Ásia (Anatólia) enquanto que no Yvert a numeração é a de 38 a 42, também no mesmo capítulo.
CONCLUSÕES
Desta maneira podemos considerar que os selos emitidos pela Liga Naval Otomana tiveram usos diferentes ao longo do tempo:
Selos de contribuição voluntária (ou cinderelas): emitidos em 1914 a favor da Associação da Marinha Otomana,
Selos de contribuição, por sobrecarga aposta em 1915 para ajuda ao imigrante
Selos fiscais em 1916 para pagamento de imposto de venda de querosene (na época muito utilizado em fogareiros domésticos).
Selos postais em 1921 por aposição de sobrecarga, utilizada para porteamento de correspondência pelo governo de Ankara por falta de selos postais.
O capítulo de selos fiscais do Império Otomano, posteriormente Turquia, é fascinante pelo conteúdo histórico, pela pesquisa que demanda para determinar seu uso em documentos, contribuições e taxas (como explicado em outro artigo sobre o financiamento da Ferrovia de Hedjaz) e finalmente com seu uso em correspondências, por falta de selos postais.
Filho de mãe brasileira e pai português, nascido em 4 de janeiro de 1892, Manoel Dias de Abreu (fig.1) conseguiu ser aprovado na Faculdade de Direito de São Paulo aos 13 anos, mas não pode se matricular pela pouca idade que tinha. Enviado à Europa para ter aulas particulares, regressou ao Brasil em 1908, entrando na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, formando-se em 1913.
Apresentou, na época, a tese de doutorado baseada na influência do clina tropical sobre a civilização intitulada Natureza Pobre em julho de 2014.
Em 1914 inicia-se a Primeira Guerra Mundial e o médico e sua família estavam em Portugal e não puderam retornar. Muda-se para Paris aonde mora por oito anos, lá tendo contato com filósofos, escritores e cientistas como Baudelaire (fig.2), Antero de Quental (fig.3), Nietzsche (fig.4) e Darwin (fig.5), decidindo seguir o caminho da ciência.
Inicia seu trabalho no Nouvel Hôpital de La Pitiê em Paris, responsável por fotografar peças cirúrgicas, construindo um engenhoso dispositivo para fotografar a mucosa gástrica. No ano seguinte passa para o Hôtel-Dieu (fig.6), hospital mais antigo da cidade, trabalhando e pesquisando os Raios-X, criada por Roentgen, físico alemão em 1895 (fig.7), assumindo a chefia do Laboratório Central de Radiologia.
No hospital Laennec especializa-se em radiologia pulmonar desenvolvendo a técnica da
Roentgen, criador do RX
densimetria, ou a mensuração de diferentes densidades radiográficas no tórax. Em 1921 publica o livro “Radiodiagnostic dans la tuberculose pleuro-pulmonare” (Editora Masson, Paris) aonde mostra a convicção de que o controle da tuberculose deveria passar por diagnóstico em massa da população.
Ao retornar ao Rio de Janeiro em 1922 a cidade estava assolada por uma epidemia de tuberculose que o impressionou a ponto de declarar: “Havia óbitos, não havia doentes, os quais ocultavam seu diagnóstico na espêssa massa da população; os poucos doentes que havia, procuravam o dispensário na fase final da doença, quando o tratamento, o isolamento e as várias medidas profiláticas já eram inúteis”
Criou anexo ao Dispensário de Tuberculose do Rio de Janeiro o primeiro Serviço de Radiologia para o diagnóstico da tuberculose. Assume o serviço de radiologia do Hospital Jesus e desenvolve a Fluorografia em 1936, com imagens nítidas o suficiente para diagnosticar a tuberculose. Produz, com um aparelho construido pela Casa Lohner, filial da fábrica Siemens (fig.8), no Rio de Janeiro, o primeiro Serviço de Cadastro Toráxico, provando a precisão do método no diagnóstico da tuberculose.
Durante o ano de 1938, três Serviços de Recenseamento Torácico foram criados em São Paulo: no Instituto Clemente Ferreira, no Hospital Municipal e no Instituto de Higiene. Outras cidades do Brasil, da América do Sul, Estados Unidos e Europa também adotaram a fluorografia como instrumento na luta contra a epidemia de tuberculose.
O Dr. Ary Miranda, presidente do I Congresso Nacional de Tuberculose realizado em maio de 1939, propôs que fosse utilizado o nome abreugrafia para designar o método criado por Manuel de Abreu. Anos depois, em 1958, o prefeito de São Paulo, Ademar de Barros, determinou que as repartições públicas da Prefeitura deveriam obrigatoriamente usar o termo abreugrafia e instituiu o dia 4 de janeiro, dia do nascimento de Manoel de Abreu, como o Dia da Abreugrafia, imitando o gesto do então Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira (figs.9, 10 e 11).
Com o intuito de diminuir o número de casos sem diagnóstico baciloscópico, nos brindou com a pesquisa do bacilo de Koch no lavado pulmonar ou lavado traqueobroncoalveolar. O primeiro lavado foi realizado em 17 de agosto de 1944 no Hospital São Sebastião.
A Abreugrafia popularizou-se como método de diagnóstico de massas de baixo custo e de fácil execução. Em localidades com tuberculose endêmica a abreugrafia era feita gratuitamente beneficiando a população fig.12). Com a evolução da tecnologia foram criados equipamentos móveis, que percorriam fábricas e escolas fazendo os exames de funcionários e alunos (fig.13). Com a diminuição dos casos e dos custos com outros equipamentos, a abreugrafia foi abandonada, mas sem jamais esquecermos o pioneiro que foi Manoel de Abreu.
A invenção de Manoel de Abreu foi responsável pela maior revolução no campo de diagnóstico precoce das doenças do tórax, principalmente a tuberculose e o câncer de pulmão. O método desenvolvido pelo médico era muito eficaz e permitia a realização de um grande número de exames em um curto espaço de tempo. A invenção de Abreu possibilitou o rastreamento da tuberculose, de tumores e doenças pulmonares ocupacionais (associadas ao trabalho). O seu custo operacional reduzido e sua alta eficiência proporcionaram a difusão mundial do método. Foram criadas unidades móveis com aparelhos de abreugrafia instalados em veículos, que realizavam as radiografias torácicas em locais públicos e em grandes indústrias. Na Alemanha, até o ano de 1938 o número de exames feitos já ultrapassava os 500 mil.
A importância de sua obra rendeu-lhe inúmeras homenagens no Brasil e no Exterior, como Cavaleiro da Legião de Honra da França, medalha de ouro do Médico do Ano em 1950 do Colégio Americano de Médicos do Tórax, bem como conduziu à criação da Sociedade Brasileira de Abreugrafia em 1957 e à publicação da “Revista Brasileira de Abreugrafia”.
Manoel de Abreu foi poeta, atividade pouco conhecida. Escreveu os livros de poesias “Substâncias” (fig.14) com ilustrações de Di Cavalcanti (fig.14); “Poemas sem Realidade”, ilustrado por ele e “Meditações”, ilustrado por Portinari (fig.15).
Manoel de Abreu foi indicado cinco vezes indicado para o Prêmio Nobel de Medicina. Seus trabalhos e pesquisas levaram ao controle da doença no mundo, ao diagnóstico e tratamento precoces, a intervenções importantes no controle da saúde pública.
Fumante inveterado, faleceu de câncer de pulmão em 30 de abril de 1962 deixando ao mundo um legado de trabalho, dedicação e amor ao próximo, exemplo a ser sempre lembrado e seguido pelas novas gerações de médicos do planeta.
Manuel de Abreu foi responsável por evitar milhões de mortos por tuberculose no mundo inteiro, graças ao seu espírito incansável em prol da medicina. Lamentavelmente nenhum país do mundo, incluindo neste rol o Brasil, sua terra natal, emitiu selos em sua homenagem. No catálogo Zioni encontramos dois carimbos, um em 1974 (Zioni 2001) e outro em 1976 (Zioni 2406) em sua homenagem, contra quatro carimbos sobre a tuberculose respectivamente em 1953 (Zioni 389, fig.17), em 1963 (Zioni 951, fig.18), em 1999 (Zioni 6569, fig.19) e em 2002 (Zioni 7614, fig.20), todos enfatizando a luta contra a doença.
Manoel de Abreu, um humanista generoso, abriu mão da patente que lhe garantiria lucros sobre a venda dos aparelhos, pois desejava que seu processo diagnóstico estivesse disponível para um número maior de pessoas: “Eu vejo no horizonte a única porta aberta para o futuro, a da ciência (…) A ciência é de algum modo a única forma de ternura (…) As grandes descobertas da medicina foram realizadas por seres sonhadores, sublimes, inspirados pelo amor”.
Matéria publicada no Boletim Filacap, ano 41, Edição Especial, de agosto de 2015
Não há como falar de Imprensa Espírita no Brasil sem antes discorrermos sobre a entrada no Kardecismo em nosso país. O Brasil oitocentista, imperial, católico por conviccção e por lei, com economia nitidamente ruralista começava a sentir os efeitos das mudanças sociais, filosóficas e políticas nascentes na Europa.
Quadra com carimbo comemorativo ao Centenário de Augusto Comte
As ideias novas, trazidas pelo Positivismo de Augusto Comte, (fig.1) mostravam um Brasil atrasado em relação aos ideais da Revolução Francesa terminada mais de um século antes, em 1799. Liberdade, Igualdade e Fraternidade, lema que derrubou a Monarquia Absolutista, os privilégios feudais e aristocráticos estavam longe de aportarem em nossa terra.
As ideias trazidas da Europa, notadamente Paris, pela emergente aristocracia brasileira surgida com a independência do Brasil e principalmente no Segundo Reinado, para uma sociedade ambiciosa de curiosidade (e de mudanças?) aponta para todos os lados: sociais, políticos, filosóficos e religiosos.
O Kardecismo, doutrina codificada por Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail, Lyon, 3 de outubro de 1804 — Paris, 31 de março de 1869) traz uma série de orientações vindas dos espíritos, não como religião ou concorrente de qualquer uma delas, mas como estudo filosófico, científico e também religioso baseado nos Evangelhos Cristãos. Circulado na França a Revista Espírita (periódico de estudos psicológicos), publicada mensalmente de 1 de janeiro de 1858 a 1869 por Allan Kardec atua como divulgador da doutrina e das pesquisas feitas nesta área (fig.2).
Afirma-se que a história do espiritismo no Brasil remonta ao ano de 1845 quando, no então distrito de Mata de São João, na então Província da Bahia, teriam sido registradas as primeiras manifestações. De acordo com Divaldo Pereira Franco o ano teria sido 1849, tendo se caracterizado por um confronto entre elementos da Igreja Católica e espíritas, com a interveniência de força policial. O fenômeno das mesas girantes foi noticiado pela primeira vez no país pelo jornal “O Cearense” em 1853.
Nomes de relevo também se opuseram ao espiritismo no Brasil, dentre eles podemos citar Olavo Bilac (fig.3) e Machado de Assis (fig.4) . Ambos repudiavam a doutrina como sendo
Olavo Bilac
portadoras de teses absurdas, sem fundamentação plausível. Somadas às condições adversas, o estudo dos textos básicos do espiritismo era circunscrito aos homens letrados, muitos deles oriundos de famílias ilustres, que tinha na França o destino preferido para a formação estudantil, aproximando-os do que havia de mais inovador, tanto em termos religiosos, como científicos. Os filhos da elite agrária que cresceram no âmbito rural
Machado de Assis
e na mocidade se mudaram para cidades cresceu acentuadamente na segunda metade do século XIX. Eles buscavam o contato com as concepções modernizantes importadas da Europa, deixando para trás o ambiente rural que ainda era presente.
Para termos dimensão das contendas entre Igreja Católica e Kardecismo, podemos citar dois acontecimentos marcantes. O primeiro deles é a carta que foi enviada ao Arcebispo da Bahia, D. Manuel Joaquim da Silveira, por Manoel da Silva Pereira, ex-major do exército. A carta criticava os ensinamentos espíritas que estavam sendo publicados pelo jornalista baiano, Luiz Olympio Telles de Menezes (fig.5) em Salvador. A segunda contenda foi estabelecida pelo Padre Juliano José de Miranda, da província da Bahia, o qual escreveu para o próprio Telles de Menezes, mostrando sua contrariedade aos princípios doutrinários do espiritismo.
Como forma de rebater as críticas, Telles de Menezes, pioneiro nas publicações espíritas, respondeu criando o jornal O Écho d’Além Túmulo (fig.6), periódico que iniciou suas atividades em 1869 e visava defender “[…] a verdadeira ciência, capaz de aproximar o homem de Deus” (Ó Écho D’além Túmulo, jul. 1869, n. 1, p. 1).
O primeiro jornal espírita impresso e publicado no Brasil foi O Écho d’Além Túmulo: monitor do Spiritismo no Brasil (fig.6) . Datado de 1869, o jornal era impresso na Tipografia do Diário da Bahia, em Salvador. As “Condições d’a assignatura” eram especificadas na página do próprio jornal, na qual se podia ler que “O Echo d’Além Túmulo apparece, bimestralmente, em um folheto, in-8, contendo 50 páginas de impressão […] o pagamento deve ser sempre adiantado, para não haver interrupção na entrega”.
O Écho d’Além Túmulo circulou até março de 1870, contudo deixou para a imprensa espírita brasileira o legado de ter sido o pioneiro de um tipo de editoração que assumiria
proporções expressivas, estendendo-se até nossos dias.
A seguir temos a comentar “A Revista da Sociedade Acadêmica Deus, Christo e Caridade” que pretendia ser o órgão oficial de divulgação dos “estudos e trabalhos” realizados em seu âmbito, bem como reunir outras entidades espíritas do período. Além disso, o periódico divulgava as decisões administrativas da organização que a idealizou. No frontispício do primeiro número publicado constava a seguinte informação:
“A Revista, órgão official da Sociedade, redigida por sua Directoria, tem por fim preencher as vistas sociais, levando aos seus Membros o conhecimento das resoluções e deliberações administrativas e transmittindo o resultado dos estudos e trabalhos da Academia Spiritia de Sciencias. Será distribuída nos círculos ate o ultimo dia do mez (Revista da Sociedade…, jan. 1881, front.).”
A circulação do periódico era mensal e o último número do periódico ocorreu em de julho de 1882, quando a Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, sua mantenedora, vivenciava uma crise por falta de adeptos, que requeriam outra instituição menos restrita e que pudessem representar todos os Espíritas, dando abertura para a Federação Espírita Brasileira, consolidada em 1884.
Em reunião promovida por Elias da Silva, a 1 de janeiro de 1884, fundou-se a Federação Espírita Brasileira. No dia seguinte (2 de janeiro) foi eleita e empossada a sua primeira Diretoria, A instituição ficou inicialmente sediada na própria residência de Elias da Silva, o sobrado à rua da Carioca, 120.
Nos seus anos iniciais, a FEB (fig.7, Zioni 3814) vivenciou diversas dificuldades quer de ordem administrativo-financeira quer ideológica no plano interno, e as turbulências políticas e sociais da Capital do país no plano externo. Como exemplo das primeiras, registrava-se uma cisão no movimento, entre os chamados “laicos” ou “científicos”, liderados pelo professor Afonso Angeli Torteroli; e os “místicos”, liderados por Bezerra de Menezes. Como exemplo das segundas, após a Abolição da Escravatura (1888) sucedeu-se a Proclamação da República Brasileira (1889) e as comoções vividas pela República da Espada, entre as quais a Segunda Revolta da Armada (1893). Tais circunstâncias resultaram no abandono da FEB por grande parte dos seus membros iniciais, deixando a sobrevivência da instituição a cargo de alguns poucos colaboradores.
Em 1889, o médico Dr. Adolfo Bezerra de Menezes (fig.8, Zioni 3560) assume à frente da instituição, instituindo o estudo sistematizado de O Livro dos Espíritos nas reuniões públicas realizadas no salão da Federação. Em 1890 foi instituído o “Serviço de Assistência aos Necessitados”, importante base para a atuação dos médiuns receitistas na instituição. Bezerra foi sucedido no início de 1895 por Júlio César Leal. Vindo este a renunciar após sete meses de gestão, Bezerra aceitou ser reconduzido, reassumindo a Presidência da Federação a 3 de agosto de 1895, cargo que exerceu até à sua morte em 1900. Durante este mandato, foi inaugurada a livraria da FEB (31 de março de 1897), responsável pela edição, distribuição e divulgação da literatura espírita.
Em 1932, a FEB publicou o seu primeiro grande sucesso editorial: o “Parnaso de Além-Túmulo”, que alcançou grande repercussão junto à imprensa e à opinião pública brasileira. O formato da obra não era novo: seguia os moldes de outra obra cujos direitos a instituição já possuía – Do País da Luz (4 vol.) -, coletânea de mensagens (textos, cartas e poemas) majoritariamente de autores renomados da literatura portuguesa, desencarnados, recebidos na primeira década do século XX pelo médium português Fernando de Lacerda. A autoria dos textos no Parnaso, recebidos pela mediunidade psicográfica do então jovem Francisco Cândido Xavier era predominantemente de figuras da literatura brasileira.
Às vésperas da implantação do Estado Novo, em 1937, no dia 27 de outubro, as dependências da FEB foram fechadas pela polícia, vindo as suas portas a ser reabertas três dias mais tarde, por determinação do Dr. Macedo Soares, então Ministro da Justiça.
O período seria marcado, ainda, pela abertura, em 1944, do famoso processo movido pela viúva do escritor Humberto de Campos contra a FEB e Francisco Cândido Xavier (fig.9), visando receber direitos autorais pretendidos sobre as mensagens psicografadas supostamente atribuídas ao seu finado marido. A partir de então, a entidade passaria a se utilizar do pseudônimo “Irmão X”.
Neste ponto que chegamos, o Kardecismo é uma doutrina atuante no Brasil, assim como diversos cultos Cristãos; o país se tornou, com sua legislação atualizada, tolerante com todos as religiões e vertentes filosóficas e sociais, numa tentativa de, após mais de dois séculos, absorver os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade da Revolução Francesa.
Bibliografia: IMPRENSA ESPÍRITA E ELITE LETRADA NO BRASIL OITOCENTISTA, 2013 Alessandro Santos da Rocha, Universidade Estadual de Maringá – UEM Cézar de Alencar Arnaut de Toledo, Universidade Estadual de Maringá – UEM Intelectuais, Espíritas e Abolição da Escravidão: Os Projetos de Reforma na Imprensa Espírita 1867-1888) Daniel Simões do Valle, Universidade Federal Fluminense, Defesa de Tese de Mestrado, 2010 www.girafamania.com.br http://www.wikipedia.org
Existe um envelope comemorativo do XXX Aniversário do Martírio dos Padres João Fuchs e Pedro Sacilotti por conta do carimbo Zioni nº 1009 emitido em São Paulo de 1º a 7 de novembro de 1964. Martírio significa grande sofrimento, suplício de martir, aflição.
O Padre João Fuchs nasceu no Cantão de Lucerna, na Suiça Alemã em 1880 e pouco se sabe de sua infância, a não ser um sentimento católico grande na família. Em 1901 fez o noviciato em Lombriasco, Itália vindo para Mato Grosso trabalhar em colégios como professor de ciências físicas e naturais. Retornou à Itália para tratamento de saúde e volta como missionário outra vez em Mato Grosso. Atendeu aos índios Bororós e a filhos de colonos na arte de ensinar, além da assistência religiosa aos garimpeiros.
Naquêle biênio de 1933 e 1934 a grande ânsia de Pe. Fuchs e de Pe. Sacilotti era encontrar os Xavantes que fugiam do encontro com os civilizados, procurá-los representava também o perigo da morte.
Padre Pedro Sacilotti nasceu São Paulo, em 1898, brasileiro descendente de família italiana de Veneza. Iniciou os estudos religiosas no Aspirantado de Lavrinhas e após foi enviado a Turim onde se ordenou padre em 1925.
Ambos os padres eram da Congregação Salesiana, uma Congregação religiosa da Igreja Católica Apostólica Romana fundada em 1859 por São João Bosco e aprovada em 1874 pelo Papa Pio IX. Seu nome oficial é Pia Sociedade de São Francisco de Sales em homenagem a São Francisco de Sales, contudo, são popularmente conhecidos por salesianos de Dom Bosco.
O principal foco da missão salesiana são os jovens, especialmente os pobres e em situação de risco. Em vista disso os salesianos trabalham também nos ambientes populares, com atenção aos leigos evangelizadores, à família, à comunicação social, e entre os povos ainda não evangelizados. A congregação é composta por irmãos de vida consagrada, que fazem votos simples de castidade, pobreza e obediência podendo optar também pelo sacerdócio. Entre as obras da Congregação salesiana pode-se citar os colégios e serviços beneficentes, espalhados por várias partes do mundo.
Os índios Xavantes estavam espalhados ao longo do Rio das Mortes, afluente esquerdo do Rio Araguaia em aldeias espalhadas entre o primeiro e o rio Koluene (maior braço formador do Xingu).
Em 1932 o Padre Fuchs obteve de seus superiores a licença de estudar e preparar um plano de penetração na selva e encontrar os Xavantes. Da cidade de Rio Conceição em canoa, enfrentando a subida do Rio Araguaia penetrou no Rio das Mortes até o barranco dos Xavantes. Ergueu ali um grande cruzeiro de cinco metros de altura e tomou posse em nome de Deus. Desciam o Araguaia, após o Padre Fuchs, o Padre Sacilotti com tres familiares para o encontrarem na localidade de Cocalinho.
Em 4 de agosto de 1932 os dois padres e sua comitiva acamparam no Rio Cristalino, rio paralelo entre o Rio das Mortes e o Araguaia, seguindo a Santa Terezinha, aonde levantaram outro cruzeiro e rezaram uma missa, porém ainda sem avistar nenhum Xavante. Retornaram a Araguaiana.
Até 1933 o Padre o Padre Fuchs tinha percorrido milhares de quilometros e queria realizar o contato com os Xavantes antes da data de canonização de Dom Bosco. Com esse intuito foi a Belém do Pará adquirir uma lancha a motor (batizada de Maria Auxiliadora). A onda de azar (se é que assim se pode chamar) começou com a viagem de volta ao Rio das Mortes. Em São Benedito numa manobra inadvertida, a lancha entrou num redemoinho, virou e bateu contra pedras, sendo danificada.
A 25 de junho, na sequencia da viagem, aparecem as doenças tropicais. Chegando na cidade de Conceição foi hóspede dos Padres Dominicanos para tratamento e descanço. Em 16 de agosto retoma viagem e chega no dia 27 ao Rio das Mortes. Em Santa Terezinha reencontra-se com o Padre Pedro Sacilotti.
Explorando o rio, na localidade de Mato Verde, em frente a Ilha do Bananal construiram um rancho e em 3 de dezembro foi inaugurada a nova missão de São Francisco Xavier, assistindo à Missa um grupo de índios Carajás.
Em 24 de março de 1934 voltaram a navegar no rio das Mortes. Na baia de São João Bosco encontraram o cruzeiro derrubado e o levantaram. Encontraram ranchos abandonados e dormiram alí. No dia seguinte rezaram a Missa e continuaram.
Injustiça seria esquecer de José Pellegrino, nascido em Benevagienna, Itália em 1880. Veio ao Brasil com uma comitiva para Mato Grosso, trabalhando em várias casas e sendo designado cozinheiro em Araguaiana. Pessoa alegre, mas franzina e com defeito nos pés acompanhava os Padres nesta última empreitada, e se não foi vítima dos Xavantes, foi do próprio Rio das Mortes.
Em 1º de novembro de 1934 avistaram dois índios Xavantes num barranco. Os padres e o índio bororó Luis, piloto da lancha, Militão Soares, de Cocalinho, o garimpeiro holandês João Schiller e Serafim Marques, de Araguaiana aproximaram-se deles e o Padre Pedro falou-lhes em carajá, mas recebendo resposta ameaçadora. Os padres pediram que os tres integrantes da comitiva buscassem presentes no acampamento. Em seguida apenas se ouviu o Padre Pedro Sacilotti gritar: “Os Xavantes atacam!”. Havia cerca de cinquenta Xavantes escondidos nas folhagens da mata.
Todos fugiram desabaladamente , mas os dois padres enfrentaram o suplício. No dia seguinte a comitiva fez uma busca e encontrou os dois cadáveres a cerca de 500 metros do barranco, ambos com o cranio fraturado. Transportados para a margem, foram enterrados na beira do rio. Meses depois os restos mortais foram transportados para Araguaiana no cemitério que já acolhia os despojos de Pellegrino.
Sealand é um principado não reconhecido pela ONU (e por nenhum estado reconhecido) localizado numa base naval inglêsa no Mar do Norte e abandonada após a Segunda Guerra Mundial, a 6 milhas (cerca de 11 quilometros) da costa de Sufolk, Inglaterra. O único acesso à base é feito por helicópteros, já que o mar revolto impede a aproximação de navios.
Antes chamada de Rough Towers, a base foi uma defesa marítima contra ataques alemães, consistindo em duas grandes torres com capacidade para 200 soldados, desativada assim que a guerra acabou.
HISTÓRIA
A instalação foi ocupada em 1965 (há relatos de ter sido em 1967) pelo ex-major britânico Paddy Roy Bates: seus associados e familiares afirmam que é um estado independente e soberano. Comentaristas externos geralmente classificam Sealand como uma micronação ao invés de um estado não reconhecido. Roy Bates era um excêntrico que ocupou a base navegando em seu barco frigorífico e instalou alí uma rádio pirata (Rádio Essex), sabendo-se protegido, já que a base estava fora do alcance das águas territoriais britânicas (até 3 milhas da costa), portanto, em águas internacionais.
Em 1987 o Reino Unido declarou como águas territoriais o entorno de nove milhas de sua costa, englobando Seland. Em 1990-91 o Reino Unido apresentou evidencias em um tribunal administrativo norte-americano, que considerou que o principado jamais existiu. A família Bates não contestou, afirmando que norte americanos não tem jurisdição para determinar a legitimidade de outros estados.
Embora tenha sido descrito como menor nação do mundo, Sealand não está oficialmente reconhecido como um Estado soberano por nenhuma nação. Seu “proprietário” Roy Bates afirma que é de fato reconhecida pela Alemanha (foi visitado por um embaixador) e pelo Reino Unido (depois de um tribunal Inglês determinou que não têm jurisdição sobre Sealand).
O governo britânico já pensou em retomar a base, no entanto ela é considerada como moradia de uma família britânica, portanto propriedade privada, além de não ter efeito positivo sobre a imagem do país.
Tecnicamente falando, Sealand é um país sem território real. O “país” emitiu passaportes e tem operado como uma bandeira do estado de conveniência, além de deter o recorde mundial do Guinness para “a menor área para reivindicar a condição de nação”.
Sealand não é um membro da União Postal Universal, pois o seu endereço para o interior é uma caixa postal no Reino Unido, portanto os selos de Sealand devem ser considerados como cinderelas.
Em 1974 Roy Bates, autoproclamado Príncipe de Sealand, criou uma constituição, um hino e uma bandeira, cunhando moedas de prata e imprimindo selos para correspondências.
Em 1978 um grupo de empresários alemães e holandeses, liderados pelo primeiro ministro de Sealand, Alexander G.Achenbach, na ausência de Roy Bates, encenou uma invasão, inclusive sequestrando seu filho e tornando todos os moradores seus reféns. Roy Bates conseguiu recuperar seu “país” prendendo e expulsando os invasores, utilizando-se de um helicóptero com armamentos. Os invasores foram considerados prisioneiros de guerra e repatriados. No entanto um advogado alemão portador do passaporte de Seland foi considerado traidor. A sua libertação exigiu a presença de um embaixador alemão no principado, já que a Inglaterra não pode interferir na negociação.
Em 1999 o príncipe Michael, sucedendo seu pai Roy Bates que tinha idade avançada e problemas de saúde decidiu colocar o “país” à venda em 2007, até agora sem compradores (há uma tentativa do Pirate Bay, site de pirataria, comprar para instalar lá os seus servidores, ainda não concretizada).
Em 2008 o “território” sofreu um grande incêndio, mas preservando os geradores de energia, sendo novamente reconstruido.
ECONOMIA
A economia do principado é baseada na emissão de passaportes, venda de títulos de nobreza, selos de correio, moedas, e-mails, direitos de posse de “pedaços do território”, brindes e lembranças, além do turismo local. Os habitantes moram em instalações de aço, sujeitos ao barulho de geradores durante todo o tempo. O acesso é feito de helicóptero e visitas com hospedagem podem ser marcadas para turismo.
Curiosamente Sealand mantém um time de futebol. Roy Bates faleceu em 9 de outubro de 2012 aos 91 anos. Apesar de não ser considerado um estado pela ONU, nem estar vinculado à UPU, os selos e envelopes de Sealand são disputados como curiosidades ou mesmo preciosidades. Uma busca simplificada no eBay apresentou 56 resultados, enquanto no Delcampe cerca de 80, incluindo envelopes circulados, selos e blocos.
O Pássaro Dodô, também chamado de Dronte (Raphus cucullatus) foi uma ave não-voadora extinta das Ilhas Maurícias, uma das ilhas Mascarenhas na costa leste da África, perto de Madagascar, no Oceano Índico. A ave mais próxima geneticamente foi a também extinta solitário-de-rodrigues, também da subfamília Raphidae da família das pombas; sendo que a mais semelhante ainda viva é o pombo-de-nicobar.
O dodó tinha cerca de um metro de altura e podia pesar entre 10 e 23 quilos. A aparência externa é conhecida apenas por pinturas e textos escritos no século XVII, e por causa dessa considerável variabilidade a aparência exata é um mistério. Pouco se sabe com exatidão sobre o habitat e o comportamento, pois há poucos e discordantes textos descritivos: plumagem cinza acastanhado, pata amarela, um tufo de penas na cauda, cabeça cinza sem penas, e o bico de cerca de 23 centímetros, amarelo e verde.
A moela ajudava a ave a digerir os alimentos, incluindo frutas, e acredita-se que o principal habitat tenha sido as florestas costeiras nas áreas mais secas das Ilhas Maurícias. As pedras da moela do Dodô eram de basalto (segundo alguns textos) e não existiam no local onde tinham sido desenterrados os ossos do dodó, mas a milhas de distância. Essa pedra ia crescendo á medida que crescia a moela, até atingir proporções do tamanho de um ovo de galinha. A pedra da moela dos dodós era a preferida para amolar facas!
Presume-se que o dodó tenha deixado de voar devido à facilidade de se obter alimento e a relativa inexistência de predadores nas Ilhas Maurícias.
A primeira menção ao dodó do qual se conhece foi através de marinheiros holandeses em 1598 (os portuguêses visitaram a ilha em 1507, mas não fizeram relatos da ave). Nos anos seguintes, o pássaro foi predado por marinheiros famintos; seus animais domésticos e espécies invasoras que foram introduzidas durante esse tempo alimentavam-se dos ovos nos ninhos. A última ocasião aceita em que o dodó foi visto data de 1662. A extinção não foi imediatamente noticiada e alguns a consideraram uma criatura mítica. No século XIX, pesquisas conduziram a uma pequena quantidade vestígios, quatro espécimes trazidos para a Europa no século XVII. Desde então, uma grande quantidade de material subfóssil foi coletado nas Ilhas Maurício, a maioria do pântano Mare aux Songes.
A extinção do Dodô em apenas cerca de um século após seu descobrimento chamou a atenção para o problema previamente desconhecido da humanidade envolvendo o desaparecimento por completo de diversas espécies.
As primeiras descrições conhecidas destas aves foram feitas pelos holandeses, que chamaram o pássaro mauriciano de walghvogel ( “pássaro chafurdador” ou “pássaro repugnante”), em referência ao seu gosto. Embora muitos escritos posteriores digam que a carne era ruim, os primeiros jornais apenas diziam que a carne era dura, mas boa, embora não tão boa como a dos pombos, abundantemente disponíveis. O nome walgvogel foi usado pela primeira vez na revista do vice-almirante Wybrand van Warwijck que visitou a ilha em 1598 e denominou-a Maurícia.
Alguns autores atribuem o nome Dodô à palavra holandesa dodoor para “preguiçoso”, mas ele provavelmente está relacionada à dodaars (“nó-bunda”), referindo-se ao nó de penas sobre o traseiro do animal. O primeiro registro da palavra dodô está no relato do capitão Willem van Westsanen de 1602. Thomas Herbert usou o termo Dodo em 1627, mas não está claro se ele foi o primeiro a vê-lo, pois os portugueses já haviam visitado a ilha em 1507, embora não tenham mencionado a ave. De acordo com o Microsoft Encarta e o Chambers Dictionary of Etymology, Dodo seria derivado do português arcaico doudo (atualmente doido). Também há textos afirmando que o nome foi uma aproximação onomatopaica do som que elas produziam, um piado de duas notas, que soava como “doo-doo”.
O último dodó foi morto em 1681, e não foi preservado nenhum espécime completo, apenas uma cabeça e um pé. Os restos do último dodó empalhado conhecido tinham sido mantidos no Ashmolean Museum em Oxford, mas em meados do século XVIII, o modelo – salvo as peças ainda existentes hoje – estava completamente estragado e foi jogado fora.
Em 1681, menos de 100 anos depois da chegada dos holandeses à ilha, o dodô foi declarado oficialmente extinto. Hoje, tudo o que resta do animal são esqueletos em museus na Europa, nos Estados Unidos e também em Maurício. A ciência garante que três espécies de dodó se extinguiram nas três ilhas nos três últimos séculos, e que só uns treze animais vivos viajaram das Mascarenhas para outras partes do mundo, entre elas um para o Japão.
Por fim, o Pássaro Dodô ficou imortalizado por fazer parte do desenho animado Alice no País das Maravilhas, de Walt Disney, sendo parte da cultura popular, frequentemente como um símbolo da extinção e obsolescência sendo frequente o seu uso como mascote das Ilhas Maurício.
Bibliografia: Mundo Estranho – Abril Wikipedia.org Infoescola.com br.monografias girafamania.com.br