Momentos Econômicos e a Música Erudita no Brasil

Em termos de Arte, o Brasil é um país muito jovem. Se considerarmos a música clássica que começa num Brasil Colônia, espoliado, sem direito a educação podemos considerar que nossos primeiros músicos foram eminentemente heróis. Olhando um pouco mais adiante, quando falamos em música nacionalista, com raízes no nosso próprio território e nas tradições incipientes genuinamente brasileiras, nossa música clássica ainda é uma recém nascida…

Esta coleção, longe de entrar em uma competitiva porque esta nunca foi a sua intenção, mostra como a Música Clássica caminha de mãos dadas com a riqueza, em qualquer lugar do mundo. Música Clássica é uma arte para aqueles que se dedicaram a vida inteira para compô-la ou executá-la, é uma arte de alto custo, pois demanda tempo em curva de aprendizado, instrumentos musicais, professores, teatros, e ainda tem que buscar o seu público.

A Música Clássica se inicia no Brasil dentro das Igrejas. Estas sempre foram ricas, quer por doações, muitas vezes de maneira espúria como a venda das indulgências, ou por expropriações como no episódio sombrio da Inquisição. O estudo do sacerdócio já no noviciato tinha a música como componente do curriculum.

A Música Clássica segue geograficamente os nossos ciclos da riqueza: o Ciclo do Ouro, Ciclo da Borracha, Ciclo do Café. Modernamente segue em companhia da riqueza, nas grandes metrópoles através de doações de bancos, financeiras ou indústrias. O mecenato, tão comum na Veneza antiga, hoje é modesto. As subvenções governamentais são cada dia menores, com o fechamento de orquestras e desmonte dos teatros.

Mas ela sempre sobreviverá através de suas gravações e por esta maravilha chamada internet, que da mesma forma que divulga a música-lixo, divulga e mantém viva a Música Clássica.

Semana de Arte Moderna de 1922 – Causas e Consequências

Coleção apresentada na SPP em maio de 2012, na Expo-SPP em agosto de 2012 e agosto de 2016, Americana em junho de 2014, Cruzeiro em julho de 2012.

A Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, ocorreu em São Paulo, entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal da cidade. Cada dia da semana trabalhou um aspecto cultural: pintura, escultura, poesia, literatura e música. O evento marcou o início do modernismo no Brasil e tornou-se referência cultural do século XX.

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Cartaz do último dia do evento

A Semana de Arte Moderna representou uma verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora da ruptura com o passado e até corporal, pois a arte passou então da vanguarda para o modernismo.Participaram da Semana nomes consagrados do modernismo brasileiro, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos,Tácito de Almeida, Di Cavalcanti entre outros. (wikipedia.org)

O mundo vivia grandes transformações científicas, artísticas, filosóficas e religiosas tendo a Europa como berço para estas transformações. A Primeira Grande Guerra traz modificações sociais e econômicas no mundo, destruindo todo um romantismo europeu (e porque não mundial?) em todas as relações humanas. A Revolução Russa de 1917 destroi o mito de governos com poder divino sobre os cidadãos para criar o poder da força sobre toda a sociedade russa.

A Europa entra em ebulição artística como resposta a todas as transformações que sofre, e o Brasil, importador da cultura européia não fica atrás. A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco que ficará em nossa história como o acontecimento que tirou o Brasil de um passado bairrista para um futuro a ser percorrido.

Heitor Villa-Lobos

Boletim da Sociedade Philatélica Paulista – SPP nº 210 de abril de 2011

Heitor Villa-Lobos nasce no Rio de Janeiro em 5 de março de 1887, prematuro de sete meses, filho de um professor e funcionário público da Biblioteca Nacional, Raul Villa-Lobos e dona Noemia Villa-Lobos, segundo filho de quatro irmãos, sobrevivendo numa época de parcos recursos médicos e ganhando o apelido carinhoso de “Tuhu”.

O gosto pela música vem através de saraus que o pai patrocinava em sua própria casa com músicos amadores como Manuel Vitorino, Francisco Fajardo, Gurgel do Amaral, Sebastião Barroso, e outros nomes que pouco aparecem na história de nossa música. Seu pai é seu primeiro professor de música, ensinando-lhe a arte do violoncelo e da flauta.

Seu avô materno é o autor da música “Quadrilha das Moças”, tocado em festas da boemia do Rio de Janeiro. A sua tia Zizinha toca Bach ao piano, o que encanta mais ainda o gosto de Villa-Lobos pela música. Em 1899 o pai morre vítima de varíola, deixando a família na pobreza. A mãe vai trabalhar como passadeira na Confeitaria Colombo e sonha com a profissão de médico para Villa-Lobos.

Fig 1Villa-Lobos aprende com amigos boêmios a tocar violão, para desespero da mãe e forma com outros músicos o conjunto de seresteiros que vai homenagear, em 1903, Santos Dumont, recém chegado de Paris após contornar a Torre Eiffel com seu dirigível. Torna-se um dos músicos que mais contribuíram para o desenvolvimento do “choro” no Brasil, tocando com o grupo peças de Ernesto Nazareth Joaquim Calado, Catulo da Paixão Cearense, entre outros.

Frequentava também as mesas da Pascoal e da Colombo, aonde teve contato com intelectuais da boemia, tais como Luis Edmundo, Olavo Bilac , Humberto de Campos, Coelho Neto entre outros nomes do início da república.

Fig 4.jpgMatricula-se no Instituto Nacional de Música, mas não aguenta a rigidez da escola. Procura o Maestro Francisco Braga, mas também não consegue se adaptar. Ganha do Dr. Leão Veloso um livro com o curso de composição do europeu Vincent D´Indy e está feito seu aprendizado. Toca, para ganhar a vida, no Teatro Recreio um repertório com óperas, operetas e zarzuelas; também no Cinema Odeon e em bares e cabarés o repertório dos chorões e dos seresteiros.

Aos 18 anos inicia seu ciclo de viagens pelo Brasil (há discordância entre seus biógrafos) coletando músicas das diversas regiões, sul, norte, nordeste e centro-oeste que servirão de base para suas maiores composições no lado da música erudita, iniciando suas viagens com o dinheiro da venda de livros raros de seu falecido pai.

Fig 5.jpgCasa-se no Rio de Janeiro com Lucília, que passa a ser a intérprete de suas obras em audições em casa para amigos como os maestros Francisco Braga e Henrique Oswald. Em 1915 faz sua primeira aparição em público no Teatro Eugênia com obras suas e do compositor europeu Popper. Após, dá o seu primeiro concerto no Teatro São Pedro sob a regência de Francisco Braga.

Fig 6.jpgEm 1919 realiza um concerto no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, homenageando Epitácio Pessoa que regressava da Conferência de Haia.

Em 1922 participa da Semana da Arte Moderna junto com a vanguarda cultural brasileira, viajando no ano seguinte, sob o patrocínio do milionário carioca Arnaldo Guinle a Paris aonde tem contato com a música contemporânea. Tem contato com grandes músicos como Andres Segovia, Artur Rubinstein e Vera Janacópulos, que tornam a sua música conhecida mundialmente.

Termina por carta o casamento com Lucília em 1930, casando-se com uma ex-aluna, Arminda Neves d´Almeida, “Mindinha”. Operado de câncer em 1948 falece em 17 de novembro de 1959.

Difícil dizer qual foi sua grande obra: foi autor de choros, serestas, 12 sinfonias e as maravilhosas Nove Bachianas Brasileiras, além das cirandas, das composições de piano Fig 7como a Prole do Bebê e outras. Foi o compositor que mais divulgou a música brasileira na Europa e América ao lado de Carlos Gomes. Realizou no Brasil, após 1930, uma turnê por sessenta e duas cidades brasileiras, bem como a Cruzada do Canto Orfeônico no Rio de Janeiro, além de ser o fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Música.

Após a sua morte, sua viúva Mindinha encarrega-se da divulgação de sua monumental obra. Em 1960 o governo cria o Museu Villa-Lobos no Rio de Janeiro.

O Brasil emitiu dois selos em homenagem a Heitor Villa-Lobos, o primeiro em em 26 de abril de 1977 como parte da série Compositores Brasileiros e o segundo em 5 de março de 1987 nas comemorações dos seus 100 anos do nascimento.

Fig 8.jpg

Roberto Antonio Aniche
Membro da SPP Sociedade Philatélica Paulista
Membro da Sobrames Soc. Brasileira de Médicos Escritores

Bibliografia
Villa-Lobos – Editora Três
Wikipedia
Catálogo RHM 2010