Os Selos Locais de Lundy

Publicado no Boletim Filacap nº 189 ano 42 de outubro de 2016.

Fig 1 Ilha de Lundy
Fig. 1 Mapa de Lundy

Lundy é a maior ilha do canal de Bristol distando 19 km da costa de Devon, na Inglaterra, em direção ao País de Gales. O comprimento da ilha é de aproximadamente 5 km (fig.1).

Em 2007 a população residente era de 28 pessoas, incluindo voluntários. Entre as 28 pessoas, existia um guarda, um encarregado da ilha e um granjeiro, além de empregados de um bar. A maioria da população vive ao sul da ilha. Os visitantes são geralmente excursionistas de um dia, mesmo tendo a ilha 21 propriedades de férias e um acampamento para visitantes, localizados principalmente ao sul.

O número máximo de habitantes ocorreu em 1881, quando a ilha teve cerca de 180 habitantes. Em 1911 a população era de 43 homens e 26 mulheres, incluindo-se aí a tripulação do farol e o agente do correio, habitando ao todo 12 casas.

Numa votação em 2005 feita pelos leitores da Radio Times, Lundy foi nomeada como a décima maravilha da Grã-Bretanha. Toda a ilha foi designada como Sítio de Especial Interesse Científico e foi a primeira Reserva Natural Marinha da Inglaterra, devido a sua flora e fauna únicas (fig.2). É comandada pela Landmark Trust em nome da National Trust. A ilha tem 345 hectares de área.

Fig 2 Lundy praia
Fig. 2 – Praia em Lundy
  • RADIO TIMES
  • Revista britânica semanal de listas de programação, fundada e publicada entre 1923 e 2011 pela BBC Magazines. Depois deste ano, a sua publicação foi passada para a Immediate Media Company.
  • LANDMARK TRUST
  • Há mais de 50 anos o filantropo John Smith e sua esposa fundaram a Landmark Trust, cujo o objetivo era tentar evitar a perda de edifício históricos.
  • John Smith já era uma figura de destaque no mundo da conservação: um entusiasta comprometido em edifícios e outras estruturas históricas. Sua experiência o levou a concluir que deveria investir em edifícios e construções fora de moda para qualquer outra pessoa. E assim, em 1965, o Landmark Trust veio a criar, em conjunto os Smiths, a coleção Landmark, que conta hoje com quase 200 edifícios em diversas partes do mundo.

O FINAL DO CORREIO INGLÊS EM LUNDY

Fig 3 Lundy_post
Fig.3 Antiga caixa de correio de Lundy

Devido a um declínio na população e falta de interesse em manter o transporte de cartas da ilha, o correio inglês encerrou seu trabalho no final de 1927 (fig.3). Nos anos seguintes, “King” Harman criou um sistema próprio de correio da ilha para o continente e vice-versa. Em 1 de novembro de 1929 ele decidiu compensar a despesa através da emissão de uma série de selos postais privados, com um valor expresso em “Puffins”. A impressão destes selos continua ainda hoje (fig.4 e 5). Eles são colados no canto inferior esquerdo do envelope, para que os centros de triagem do continente possa processá-los: seu custo inclui os encargos normais de correio para a frente de entrega, ou seja, a unidade de correio inglês mais próxima no continente (fig.6).

 

Fig 6
Fig. 6 – Cartão postal circulado de Lundy para Birminghan em 1953 com postagem da ilha para o continente e postagem para o destino com selos ingleses

Martin Coles Harman (nascido em 1885 em Steyning, Sussex) era um homem de negócios

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Fig. 7 Moeda da ilha com a efígie de Martin Coles Harman (“King Harman”)

inglês que comprou a ilha de Lundy em 1925 e auto-proclamou-se Rei de Lundy. Mais tarde ele emitiu uma moeda independente em Lundy denominada Puffin (½ Puffin e de 1 Puffin) (fig.7), que eram nominalmente equivalentes ao Halfpenny e Penny britânicos, resultando em sua perseguição pelas autoridades do Reino Unido pela emissão de moedas ilegais sob a Lei de cunhagem de 1870. A Câmara dos Lordes considerou-o culpado em 1931, e ele foi multado em £ 5 mais despesas. As moedas foram retiradas de circulação e tornaram-se objetos de coleção.

 

Este tipo de selos é conhecido na filatelia como uma “etiqueta de transporte local”. Os valores foram crescendo com a inflação sendo criado inclusive selos para correio aéreo.

Os selos da Ilha de Lundy servem para cobrir a postagem de cartas e cartões da ilha para caixa postal inglesa mais próxima no continente não só para os moradores como também para os muitos milhares de visitantes que anualmente desembarcam na ilha.

Os selos de Lundy tornaram-se parte da coleção dos muitos colecionadores britânicos de selos locais e de colecionadores do mundo todo. Lundy e seus selos apareceram em 1970 no Rosen, Catálogo de Selos Locais Britânicos, e no Phillips Locals Britanic, moderno Catálogo em CD publicado desde 2003.

Fig 8
Fig. 8 Labbe´s Specialized Guide to Lundy Island, 2016 edition

Encontramos na internet um Catalogo de Selos de Lundy feito por Anders Backman indicando que o primeiro selo foi emitido em 1929. A última anotação do site indica o ano de 1997 com um total de 306 selos editados.

Outro catálogo é editado por Patrick C.Labbe, membro da American Philatelic Society, da United States Possessions Philatelic Society e da Local Post Collectors Society, o Lundy Island Stamps: Labbe´s Specialized Guide to Lundy Island 2016, contando 369 selos emitidos até 2015, à venda em CD-ROM (fig 8).

 

Bibliografia:
www.wikipedia.org
http://www.lundy.org.uk/download/resources/Lundy1911.pdf
http://www.silverdalen.se/stamps/lundy/lundy_cat.htm
http://lundy2007.tripod.com/
http://www.upu.int
http://www.stampcommunity.org/topic.asp?TOPIC_ID=11056
http://www.landmarktrust.org.uk/about-us/history/
http://genome.ch.bbc.co.uk/
http://www.ebay.com

Os Selos de Taxa da Ferrovia de Hedjaz, Império Turco-Otomano

Publicado no Boletim Filacap – Edição Especial ano 39 de junho de 2013

A HISTÓRIA

A Estrada de Ferro de Hedjaz (ou Hejaz) foi sugerida em 1864, e construída no período entre 011900 e 1908, com a finalidade de facilitar as peregrinações aos locais sagrados muçulmanos, mas estrategicamente para fortalecer o domínio otomano em províncias distantes, bem como uma via economicamente forte para as finanças do Império.

A obra foi autorizada por Sua Majestade Imperial, o Sultão do Império Otomano Abdulhamid II, 34º sultão do Império, o último que o governou com poder absoluto, também conhecido como Ulu Hakan , o Grande Khan e também como Kizil Sultan, o Sultão Vermelho (fig. 1). Foi deposto em 1909 na Jovem Revolução Turca.

O trajeto principal, de Damasco a Medina (a ferrovia nunca chegou a Meca) tinha 1.320 quilômetros, passando pela Transjordânia e noroeste da Arábia, para a região de Hedjaz, onde se situam Medina e Meca.

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A ferrovia substituiu as antigas rotas de caravanas (cujas viagens de ida e volta a Damasco levavam quatro meses), criando um novo inimigo ao Império. Foram necessários 5.000 soldados otomanos para construir, manter e guardar a ferrovia, sob a orientação do engenheiro alemão Heinrich Augusto Meissner. A construção encontrou inúmeras dificuldades: tribos hostis e imprevisíveis, terreno difícil, rochoso ou arenoso, calor extremo, pó e tempestades de areia, e às vezes inundações repentinas por tempestades torrenciais que destruíam as linhas e pontes. 

Ao mesmo tempo foi iniciada a construção da Estrada de Ferro Berlim-Bagdá, e as duas estradas se interrelacionariam. A outra intenção da construção da ferrovia seria a de proteger Hejaz e outras províncias árabes da invasão britânica.

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Fig. 3

Concluída em 1908, transportava em 1914 cerca de 300.000 passageiros por ano (fig. 3), mas não somente peregrinos. A estação foi inaugurada em 1908, aniversário da ascensão do Sultão Abdulhamid II ao poder, mas a principal estação, a de Hedjaz (fig. 4) em Damasco iniciou suas operações em 1913, sendo o ponto inicial para Medina. Na Primeira Grande Guerra a Turquia transportava tropas e mantimentos, havendo inúmeras tentativas para desmantelar a linha para impedir a ofensiva do exército turco. O ramal entre a Jordânia (Ma´an) e Medina sofreu danos irreparáveis por sabotagem, principalmente pela estratégia militar inglesa por T.E.Lawrence (fig. 5) , que junto com as forças árabes descarrilhou comboios e locomotivas que transportavam tropas turcas (fig. 6).

No final da primeira guerra, as linhas em funcionamento foram controladas pelos respectivos governos da Síria, Palestina e Transjordânia, servindo principalmente como atração turística.

O FINANCIAMENTO

Foi aberta uma subscrição no mundo Islâmico para a constituição de fundos para a sua construção. A obra foi um grande desafio econômico e de engenharia, com custo estimado em 4 milhões de liras, sendo aberta uma subscrição para todas as nações e autoridades islâmicas. Donativos da Índia e do Egito causaram protestos do governo britânico, mas também houve subscrições do Marrocos, Rússia, China, Singapura, Holanda, Irã, África do Sul, Américas. Foram distribuídas moedas de bronze, prata e ouro a autoridades que fizeram suas contribuições.

IMPOSTOS POR SELOS FISCAIS

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Fig 7

Após as doações, os impostos cobrados por selos fiscais chegaram a 22% do orçamento. Foram emitidos inúmeros tipos de selos fiscais, utilizados em documentos (fig. 7), passaportes, recibos e em correspondência (fig. 8 a 12), apesar de não temos encontrado nenhum envelope com estes selos, mas somente fragmentos com carimbos obliteradores postais.

A grande maioria dos selos tem aposto sobrecarga vermelha ou preta e até manuscrita, sempre com referência ao Sultão (tughra, marca do Sultão) da época ou alusivas à construção da ferrovia e mesmo com alterações de valores de taxas (ocorrência muito comum). Também foram usados em 1917 na cidade de Adana e distritos como taxa de cigarros de papel.

 

USOS DIVERSOS DOS SELOS DA FERROVIA DE HEDJAZ

Os selos foram utilizados pelos governos do Império Otomano, e após a sua queda pelo Governo Turco, além de outros países estrangeiros em ocupação no território otomano:

  • selos fiscais da Ferrovia de Hedjaz usados normalmente com sobrecarga
  • selos fiscais otomanos com sobrecarga do Grande Assembleia Nacional Turca
  • emissão provisória na Guerra da Independência Turca
  • ocupações estrangeiras

13Das ocupações destacamos a Ocupação Italiana nas ilhas do Egeu e como títulos da dívida pública otomana (sobrecarga “Debito Publlico Ottomana”); ocupação grega na Anatólia, Ilha de Rodes e Europa Otomana; ocupação britânica na Mesopotâmia (Iraque), ocupação francesa na Síria e Líbano (fig. 13).

FINALMENTE

Selos de sobretaxa tem sido utilizados em correspondência em diversos países, quer como taxas de guerra (war tax), para benfeitorias (Brasil, taxa pró-aeroportos), saúde (Brasil, série Hansen) e para outras finalidades.

O estudo da história da Ferrovia de Hedjaz é muito interessante e cheio de desfechos, mas o grande desafio é o estudo filatélico, quando selos fiscais são utilizados para donativos e subvenções, verdadeiro desafio para o filatelista, quer pela pouca literatura disponível, quer pela dificuldade das línguas faladas no oriente. Há muito que se procurar, investigar, estudar e principalmente corrigir os erros que certamente virão nesta coleção, uma história cheia de segredos de uma ferrovia que já completou 100 anos. (fig. 14)

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Bibliografia:

Ottoman Turkish Empire, Revenue Stamps of the Hejaz Railway, issued between 1904 and 1918, Steve Jacques, 2012
Wikipedia, diversas páginas
Imagens: internet, ebay, delcampe

Detalhes Importantes nos Selos da Turquia

Publicado no Boletim Filacap nº 168 ano 36 de dezembro de 2010

Os caracteres árabes são uma das formas mais difíceis de se interpretar em selos do oriente médio, principalmente se estivermos estudando o período em que não haviam caracteres latinos impressos para fácil identificação da origem e data de sua emissão.

Um detalhe interessante nos selos da Turquia é a “tougra”, ou assinatura do sultanato. Trata-se de um estilo de caligrafia impossível de ser imitado, na época utilizado por pessoas importantes. Neste método, as primeiras letras da assinatura são particularmente maiores do que as outras, formando uma base, às vezes projetando as últimas letras do nome.

01Este método caligráfico muitas vezes “desenha” formas humanas, de animais ou plantas e coloca em seu interior uma assinatura ou uma mensagem. (fig.1)

O primeiro selo turco, de 1863 (Yvert 2, Scott 1) apresenta uma “tougra” simples utilizada apenas nesta série. Este é o símbolo do Sultão Mahmoud Khan, ou Mahmud II (1808-1839) que trocou as antigas instituições do Império Otomano por modelos importados do Ocidente e foi desenhado (caligrafado) em 1808 por Moustafá Raquim. (Fig. 2 e 3)

Em 1901, na série de selos para correspondência para o exterior, surge uma outra tougra” com o acréscimo de outra assinatura à sua direita (Fig 4). Esta assinatura à direita é do grande Sultão e Califa Abdülhamid, o El-Ghazi, o conquistador (Fig. 5), governando até 1909 e morto em 1918. Seu sucessor, Mehmet V (ou Mehmed V, ou Mohammed V, Fig 6) retira sua assinatura, voltando ao símbolo do califado e governando até 1918, sendo sucedido por Mehmet VI.

Assim em 1920 a série Yvert 617 a 625 utiliza os selos de 1913 e 1914 (Yvert 179-191 Fig.7) retorna com a utilização da primeira, aquela dos selos de 1863. É muito fácil confundir estes selos já que os desenhos, cores e valores são os mesmos, ficando a diferença apenas na tal assinatura do sultão.

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08Em diversos selos reutilizados neste período é utilizada uma sobrecarga com a “tougra” sem a assinatura à direita de El-Ghazi. (Fig 8)

Interessante observar que o líder Mustafá Kemal, o Ataturk em 1917 (Fig. 9) cria um exército de resistência nacional, desembarcando na cidade de Samsum em 19 de maio de 1919. Cria um governo provisório, inclusive com aliados do próprio governo aumentando a oposição ao sultanato.

 

Em 1923 instala a República Turca, abolindo o regime de sultanato então vigente. Implanta o estado laico, permitindo apenas o poder espiritual com o califado. Em março de 1924 abole definitivamente o sultanato. O símbolo somente aparece novamente em uma série de “selos sobre selos” comemorando o centenário do selo turco (Yvert 1634-1637, Fig.10).

Este artigo nos mostra a dificuldade em se classificar os selos Turcos e a necessidade de compreendermos a história de qualquer país que nos aventuremos a colecionar. Além de encontrarmos esta diferença de assinatura dos selos citados, as “tougras” também mostram diferenças sutis na sua grafia. Pequenas modificações, imperceptíveis a olho nu revelam nestes selos muito de sua história indicando a assinatura do sultão daquela época. A dificuldade em se classificar os selos da Turquia torna esta coleção um desafio para o filatelista, dentro de uma parte fascinante da história da transição do Império Otomano para a moderna República da Turquia.

Bibliografia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Tughra
http://en.wikipedia.org/wiki/Postage_stamps_and_postal_history_of_Turkey
Catálogo Yvert e Tellier, edição 1970 Tomo II Timbres d´Europe
Catálogo Scott, edição 2007

Evolução dos Selos da Turquia

Publicado no Boletim Filacap nº 166 ano 36 de maio de 2010

A Turquia é um país continental constituído por uma pequena parte europeia, a Trácia, e uma grande parte asiática, a Anatólia, sendo uma república democrática, secular e constitucional, com sistema político estabelecido em 1923 com o final do Império Otomano decretado com a derrota deste na Primeira Guerra Mundial.

O Império Otomano teve sua formação iniciada em 1299 quando o califa Osman I (em árabe: hutmãn, de onde vem o termo otomano) conquista parte da Anatólia e termina em 1922, quando perde na Primeira Guerra Mundial.

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Yvert nº 1

O primeiro selo da Turquia surge em 1859, ou seja, ainda na fase de Império Otomano, para liberar cartas a bordo dos navios da marinha, com seus valores escritos à mão, emitidos na cor carmim. Em 1868 surge novo modelo para as cartas entregues à Companhia de Barcos a Vapor “Asia Minor Steam Ship Company”, de Smirna, cidade na costa do Mar Egeu, que em 1415 tornou-se parte do Império Otomano.

O selo número 1 e suas variedades (Yvert 1, 1A e 1B) emitidos

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Variedades

com 9 anos de diferença e utilizados em navios diferentes contém caracteres ocidentais, no mínimo estranho para um Império cujo relacionamento com o mundo vinha de 500 anos de guerras e conquistas. A utilização foi feita em navios mercantes e eram selados no próprio navio ou entreposto comercial o que sugere que os selos eram emitidos e comercializados pelas empresas proprietárias dos navios. Estes selos aparecem no Catálogo Yvert, mas não são mencionados no Catálogo Scott.

Em 1863 surge um selo escrito em caracteres árabes, em diversos valores e cores, (Yvert 2 a 6), considerado por muitos filatelistas como realmente o primeiro selo do correio turco. Somente em 1876 surgem os primeiros selos com caracteres árabes e ocidentais (Yvert 44 a 49) com o nome do país (Emp.Otoman) e o valor e moeda. Existe, a partir deste momento uma miscelânea que ora coloca apenas o algarismo do valor e a moeda, ora o país e valor e moeda.

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Yvert nº 44A
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Yvert nº 2

Em primeiro de novembro de 1922, a Grande Assembléia Nacional Turca aboliu o sultanato, pondo fim a 631 anos de domínio otomano. Em 1923 o Tratado de Lausanne reconheceu a soberania da nova República da Turquia. Mustafá Kemal Pacha, que seria conhecido como Kemal Ataturk (“pai dos turcos”) tornou-se seu primeiro presidente, instituindo grandes reformas políticas.

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Yvert 687

O primeiro de centenas de selos com a efígie de Kemal Ataturk é o Yvert 687, de uma série de 8 valores, comemorando o acordo de paz com a Grécia. O selo mostra a imagem de Ataturk e a ponte de Sakaria. O Rio Sakaria é o terceiro maior rio da Turquia, com 824 km de extensão.

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Yvert 662

A reforma em 1923 tornou a República Turca um estado laico, tornando livre o culto religioso e adotando o alfabeto ocidental. Mesmo assim, os primeiros selos da república, de 1923 (Yvert 662 a 667, Parlamento Turco em Ankara), contém somente caracteres árabes.

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Yvert 670

Interessante notar que novamente o Catálogo Scott não faz menção a esta série, considerando como primeiro selo da República Turca o de número 668 do Yvert, uma série que vai de 668 a 686, emitida de 1923 a 1925. Os selos Yvert 662-667 constam no Catálogo Scott como sendo emitidos na Anatólia em 1922 (Turquia asiática).

Finalmente em 1929 surgem os primeiros selos obedecendo as reformas

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Yvert 746

(Yvert 744 a 749 em diante), que exibem somente caracteres ocidentais: “Turkiye Cummuriyeti”, “Posta”, “Postalari”, e já trazendo a indicação nos selos comemorativos do seu motivo de emissão.

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Yvert 749

As emissões a partir daí tornam-se regulares, com os selos servindo unicamente a seu propósito: portear cartas, com selos emitidos separadamente para o correio aéreo, o correio marítimo, selos beneficientes (Crescente Vermelho), selos de taxas, selos para jornais, blocos e folhinhas, etc., diferente do que acontecia anteriormente, quando os selos ganhavam diversas sobretaxas para mudarem de utilidade e serviço.

Bibliografia:
Catálogo Yvert e Tellier, edição 1970 Tomo II Timbres d´Europe
Catálogo Scott, edição 2007
Wikipedia.com – Têrmos: Turquia, Sakaria
Site http://www.sandafayre.com/Gallery/country_389_1.htm
História Postal da Turquia em: http://en.wikipedia.org/wiki/Postage_stamps_and_postal_history_of_Turkey

Semana de Arte Moderna de 1922 – Causas e Consequências

Coleção apresentada na SPP em maio de 2012, na Expo-SPP em agosto de 2012 e agosto de 2016, Americana em junho de 2014, Cruzeiro em julho de 2012.

A Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, ocorreu em São Paulo, entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal da cidade. Cada dia da semana trabalhou um aspecto cultural: pintura, escultura, poesia, literatura e música. O evento marcou o início do modernismo no Brasil e tornou-se referência cultural do século XX.

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Cartaz do último dia do evento

A Semana de Arte Moderna representou uma verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora da ruptura com o passado e até corporal, pois a arte passou então da vanguarda para o modernismo.Participaram da Semana nomes consagrados do modernismo brasileiro, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos,Tácito de Almeida, Di Cavalcanti entre outros. (wikipedia.org)

O mundo vivia grandes transformações científicas, artísticas, filosóficas e religiosas tendo a Europa como berço para estas transformações. A Primeira Grande Guerra traz modificações sociais e econômicas no mundo, destruindo todo um romantismo europeu (e porque não mundial?) em todas as relações humanas. A Revolução Russa de 1917 destroi o mito de governos com poder divino sobre os cidadãos para criar o poder da força sobre toda a sociedade russa.

A Europa entra em ebulição artística como resposta a todas as transformações que sofre, e o Brasil, importador da cultura européia não fica atrás. A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco que ficará em nossa história como o acontecimento que tirou o Brasil de um passado bairrista para um futuro a ser percorrido.

Presidentes do Brasil

Coleção apresentada na Sociedade Philatélica Paulista em 27 de agosto de 2011 e na Expo-SPP, SP em agosto de 2014.

PRESIDENTES DO BRASIL
A História da República no Brasil inicia-se em 15 de novembro de 1889 com a destituição da família Real pelo Marechal Deodoro da Fonseca. Ao longo de 122 anos desta instituição podemos notar literalmente que a história se repete, ou tenta se repetir com novos personagens em novas épocas. As coincidências circunstanciais entre os acontecimentos dos diversos presidentes parecem que estão permitindo ao povo brasileiro corrigir grandes erros. No fundo assistimos nesta coleção, a 122 anos de disputa pelo poder a qualquer custo.

GOLPES DE ESTADO sempre foram uma tônica nas republiquetas latino-americanas, e no Brasil não poderia ser diferente. O Império, apesar do grande prestígio entre a população e outras nações passava por uma época difícil:

  • Dom Pedro só tinha filhas: a princesa Isabel era casada com o Conde D´Eu;
  • A Lei Áurea libertou os escravos mas não indenizou os fazendeiros;
  • A crise econômica que se estabelecera com a Guerra da Tríplice Aliança.

O Marechal Deodoro era monarquista convicto, mas foi traiçoeiramente enganado com boatos de que seria preso. Proclamou a República e voltou a dormir… No dia seguinte Dom Pedro II foi avisado que não era mais o imperador.

Em 1930 o candidato por São Paulo, Julio Prestes foi eleito presidente da República. No entanto oposicionistas lideraram uma revolução impedindo a posse do candidato após o assassinato de João Pessoa, vice de Getúlio Vargas. Na revolução o presidente Washington Luiz é deposto e Getúlio Vargas assume com um golpe de estado.

Em 1937 surgem denúncias de tentativas de implantação do comunismo no Brasil, o Plano Cohen, sendo decretado estado de sítio no Brasil. Sem resistência Getúlio Vargas deu um golpe de estado e instaurou uma ditadura em 10 de novembro de 1937, através de um pronunciamento transmitido por rádio a todo o País. O Congresso foi fechado, nomearam-se interventores para os estados e Getúlio governou com plenos poderes.

Em 1961 Jânio Quadros renuncia ao governo e João Goulart é impedido de assumir a presidência. Militares impedem a sua posse sendo Ranieri Mazzilli conduzido interinamente o país. Implantado o regime parlamentarista, João Goulart consegue assumir a presidência.
Em 1964 João Goulart é deposto com a desculpa de que se estava a implantar o regime comunista no Brasil. Ranieri Mazzilli novamente toma posse até que os militares assumissem o controle da política no Brasil, implantando uma ditadura militarizada com todos os graves prejuízos à democracia.

A INFLUÊNCIA NORTE-AMERICANA no Brasil mudou o rumo de nossa história por diversas vezes. Na segunda guerra mundial Getúlio Vargas tentou manter o país afastado da guerra em posição de neutralidade. No entanto é forçado a assinar um Acordo de Defesa Mútua em 1941, cedendo bases aéreas e marítimas, incluindo Fernando de Noronha aos Estados Unidos. A história conta que o Brasil teria sido invadido pelos norte-americanos para que o nordeste servisse como base avançada para as tropas, aviões e navios da coalisão.

Em 1942 o Brasil rompe relações diplomáticas com o eixo, deslocando tropas de infantaria, materiais, medicamentos, viaturas e aviões de combate. No entanto toda a força brasileira ficou sob o controle norte americano. A batalha de Monte Castelo durou três meses. A campanha toda custou ao Brasil cerca de 2.500 mortes e 12.000 mutilados de guerra. Roosevelt afirma que “Vargas é um ditador a serviço da democracia”.

Em 1964 houve um movimento de reação, por parte de setores conservadores da sociedade brasileira – notadamente as Forças Armadas, o alto clero da Igreja Católica e organizações da sociedade civil, apoiados fortemente pela potência dominante da época, os Estados Unidos da América – ao temor de que o Brasil viria a se transformar em uma ditadura socialista similar à praticada em Cuba, após a falha do Plano
O temor ao comunismo influenciou a eclosão de uma série de golpes militares na América Latina, seguidos por ditaduras militares de orientação ideológica à direita, com o suposto aval de sucessivos governos dos Estados Unidos da América, que consideravam a América Latina como sua área de influência.
No Brasil golpe derrubando o pres. João Goulart estabeleceu um regime alinhado politicamente aos Estados Unidos da América e acarretou profundas modificações na organização política do país, bem como na vida econômica e social. Os Estados Unidos apoiavam, financiavam se identificavam com ditaduras de direita no auge da guerra fria com a Rússia.

AS GUERRAS INTERNAS no Brasil são um ponto vergonhoso na história de nossa nação, sempre apoiadas em “verdades criadas” para a manutenção do poder. Assim em 1897 o presidente Prudente de Morais rcebe informações de que o beato Antonio Conselheiro armara um exército que estava marchando para o Rio de Janeiro com a intenção de depor a república e reinstalar a monarquia. Após quatro sangrentas batalhas Prudente ordena a destruição total de Canudos. Cerca de 20.000 pessoas, incluindo mulheres, velhos e crianças são assassinados, os líderes são degolados e Canudos é incendiada.

Durante o governo Médici, na década de 70, militantes do PCdoB tentaram criar uma república socialista nos moldes de Cuba e China, começando pela bacia do Rio Araguaia. Para combater os 79 guerrilheiros o exército colocou 5.000 homens na região. Todos foram assassinados e tiveram seus corpos desaparecidos. Dentre os envolvidos, Osvaldo Orlando da Costa, guerrilheiro temido, foi morto com um tiro de calibre 12. Seu corpo foi içado em uma corda por helicóptero e solto do alto. Novamente içado pelo helicóptero foi exibido como troféu para a população local. A segunda guerrilha do Araguaia ocorreu no município de Piçarra, com o exército expulsando famílias à força, fuzilando homens e violentando mulheres.

A EVOLUÇÃO DOS SELOS NOS MANDATOS segue um padrão distinto:
Na República Velha são homenageados os presidentes em diversos selos, além de outros sequer aparecerem em peças filatélicas. Até a presidência de Getúlio Vargas os presidentes são homenageados com suas efígies estampadas em raros selos. Já na era Juscelino surgem selos e envelopes destacando não só o presidente, mas também as obra do seu governo, numa nítida propaganda política para aumentar o índice de popularidade.

A estratégia segue durante a ditadura militar, num tipo de propaganda para aumentar a aprovação do regime pelo povo. Assim grandes obras como Itaipu, Transamazônica, empresas como Embraer tem selos, máximos postais, carimbos sempre vistosos. O lema “Brasil, ame-o ou deixe-o” torna-se evidente em todas as ações do governo e nos Correios não seria diferente.

Após a saída dos militares nossos selos entram num certo marasmo em relação aos presidentes, exceção feita ao ex-presidente Lula, num selo excessivamente maquiado a “photoshop” posando como um verdadeiro santo pai-dos-pobres, verdadeira propaganda eleitoral.

Créditos
Os dados da história do Brasil podem ser coletados na internet. Sites importantes como o da Presidência da República, a Wikipedia (sempre com atenção para as páginas não confiáveis), o Google, bem como bons e velhos livros de história. Caso o texto seja considerado ofensivo a qualquer pessoa, informo que não é de nosso interesse nem nossa intenção fazê-lo. Humildemente solicitamos desculpas bem como retiraremos o parágrafo considerado ofensivo ou não merecedor de crédito. Internet, enciclopédias, livros e apostilas de história do Brasil nem sempre mostram a realidade.

Afinal de contas, 511 anos de história do Brasil, entre Colônia, Império e República nos mostraram que a verdade muda com o tempo. Mostra também que mentiras faladas repetidas vezes com convicção podem tornarem-se verdades absolutas. Infelizmente.

Escravidão no Brasil – Aspectos Históricos

História ilustrada da Escravidão no Brasil, do descobrimento até o início da República.

A escravidão no mundo se inicia na Mesopotâmia, há cerca de 5.000 anos atrás, numa relação entre dominador e dominado, vencedor e vencido. Portugal, no século XIV comprava escravos chineses, povos muçulmanos vencidos eram escravizados com a anuência da igreja. Muitos judeus convertiam-se em cristãos-novos para fugir da dominação, já que a Santa Sé proibia a escravidão de católicos.

Quando da descoberta do Brasil, Portugal não tinha sequer mão de obra para a colonização, e numa tentativa de proteger a terra de invasões inicia o povoamento com o regime de capitanias hereditárias. Nesta primeira fase o índio é vencido e escravizado, novamente na base da dominação e imposição de castigos físicos. Este primeiro regime escravagista encontra algumas resistências: o índio não é afeito ao trabalho fixo, já que sua economia é baseada na caça e pesca pelos homens, enquanto as mulheres cultivam a horta. Portugal olha os índios como seus súditos e a Igreja não recomenda a escravidão (apesar de ser dona de escravos, além de fazer uma dominação através das ordens jesuíticas).

Inicia-se no Brasil o ciclo das grandes plantações, necessitando de mão de obra barata e forte, provida por Portugal através de negros comprados nas costas da África. Estes escravos eram trocados por cachaça e tecidos em entrepostos na costa do continente. Portugal (e mais tarde França, Espanha e Inglaterra) fomentariam guerras entre tribos, aonde os perdedores seriam vendidos como escravos, além destas mesmas tribos serem obrigadas a pagar um tributo em escravos a cada período de tempo. O Brasil importa inclusive escravos alfabetizados (em árabe!), conquistados de tribos muçulmanas do norte da África.

Os escravos servem na lavoura, na mineração e dentro dos centros urbanos. Quanto pior o tratamento imposto à escravaria, maiores as chances de revoltas, com fugas, assassinatos e a formação de quilombos. Também começam a surgir os escravos alforriados ou libertos, as ordens religiosas e um discreto movimento abolicionista. A figura do escravo de ganho, aquele que trabalhava durante o dia e deveria pagar um certo valor ao seu proprietário, surge a princípio na mineração, mas logo se expande na culinária, barbearias, músicos e também na prostituição, proibida pela metrópole.

O escravo participa das guerras, luta junto com o índio e o branco contra as invasões francesas e holandesas, o que aumenta a força do movimento abolicionista, que passa a conseguir leis que protegem o escravo dos castigos corporais extremos, extingue a pena de morte por desobediência, enquanto que o governo do Império inicia, sob forte pressão da sociedade (inclusive parte da aristocracia) uma série de leis que visa extinguir o regime escravocrata, porém de maneira lenta.

Surgem as Leis proibindo o tráfico de escravos (e combatendo e punindo o contrabando, inclusive dentro do próprio território), a Lei do Ventre Livre, a Lei dos Sexagenários e finalmente a Lei Áurea, que, apesar de libertar os escravos não possui nenhuma logística para a recolocação da mão de obra.

Parte dos escravos continua nas próprias fazendas, vivendo em regime de semi-escravidão, outra parte inicia seus próprios negócios, e muitos tornam-se, pela falta de perspectiva e trabalho, mendigos, prostitutas e ladrões. Neste clima a República é proclamada, mas também sem qualquer plano de ação para diminuir a pobreza em que esta nova leva de cidadãos se encontrava. Antonio Conselheiro surge como uma luz a guiar os ex-escravos no reduto de Canudos.

No período escravista o Brasil conhece grandes líderes abolicionistas, escritores, políticos, jornalistas, republicanos na maioria. Vê surgir a Maçonaria que se infiltra dentro do próprio governo imperial anunciando que a nação precisava de novos rumos. O Brasil tem a chance de crescer economicamente colhendo vantagens sobre a invasão do Haiti pelas forças de Napoleão destruindo todo o regime de plantation, a Guerra de Secessão americana, que abre as portas do Brasil para a exportação do algodão, mas também vê, sem qualquer reclamação, todo o seu ouro ser escoado para a Inglaterra via Portugal, financiando a Revolução Industrial Inglesa.

Este é o resumo de praticamente quatro séculos de escravidão no Brasil, aonde o caldeirão de raças e culturas aqui implantado colheu, ao final, laços verdadeiros de liberdade, igualdade e fraternidade, a verdadeira influência que nossos abolicionistas tiveram a coragem de implantar em nossa Pátria.

Escravidao no Brasil

Coleção exposta com palestra na SPP Sociedade Philatélica Paulista em 30 de junho de 2012 e na Exposição Filatélica de Itaquaquecetuba no Museu da cidade, no período de 12 a 18 de maio de 2014, com palestra e discussão com os visitantes presentes no dia 17 de maio, além de ser exposta também na Expo-SPP em agosto de 2014.

A Revolta Paulista de 1924

A Revolta Paulista de 1924, também chamada de ‘Revolução Esquecida’ foi

Fig 01 Gal Izidoro Dias Lopes
Fig.1 Gal Isidoro Dias Lopes

a segunda revolta tenentista, o maior conflito bélico já ocorrido na cidade de São Paulo. Comandada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes (fig.1) contou com a participação de vários tenentes, dentre os quais Joaquim do Nascimento Fernandes Távora (que faleceu na revolta), Juarez Távora, Miguel Costa, Eduardo Gomes, Índio do Brasil e João Cabanas.

 

Deflagrada na capital paulista em 5 de julho de 1924, (a data do início do conflito em São Paulo foi escolhida para homenagear o primeiro levante tenentista, ocorrido exatamente dois anos antes no Rio de Janeiro, no episódio conhecido como a Revolta de 1922), foi o primeiro movimento militar armado que pregava o fim do monopólio das oligarquias paulistas e mineiras no poder e questionavam a vitória do mineiro Arthur Bernardes (fig.2) nas eleições presidenciais de 1922.

Fig 02 Selo RHM O-532 Arthur BernardesA Revolta de 1922 (Primeira Revolta Tenentista) serviu para mostrar o descontentamento de militares com a política do País. Em 1924, a revolução que se ergueu em São Paulo começou a desenhar um projeto político tenentista mais claro. Em sua lista de demandas, além da deposição do Presidente da República, estavam um conjunto de reformas políticas que visavam a moralização do sistema político. Pediam maior independência do Legislativo e do Judiciário, limitações para o Poder Executivo, o fim do voto de cabresto, a adoção do voto secreto e a instauração do ensino público obrigatório.

Na data de 5 de julho de 1924 a cidade vive uma das maiores batalhas travadas em solo urbano da América Latina (fig. 03). Este episódio sangrento deixa quase 2.000 prédios destruidos, 503 mortos, 4864 feridos (dois terços eram civis) e o êxodo de cerca de 300.000 moradores da capital, que à época tinha 700.000 habitantes. Campinas recebeu aproximadamente 50.000 refugiados.

Fig 03 Revolucao Esquecida

As tropas rebeldes do exército se aliaram à Força Pública Estadual (hoje Polícia Militar), convertendo-se num verdadeiro exército regional, com artilharia e aviação, atacando alvos civis. As bombas, já no primeiro dia, atingiram o Mosteiro de São Bento (fig. 4) , o Liceu Coração de Jesus (fig. 5) e inúmeras residências.

Fig 04 Selo RHM 2142 Mosteiro de São Bento SP

Fig 05 Liceu Coracao de Jesus
Fig.5 Liceu Coração de Jesus

A liderança do exército tenentista era ocupada pelos irmãos Joaquim e Juarez Távora, Eduardo Gomes e Custódio de Melo entre outros, e todos haviam participado do levante dos 18 do Forte de Copacabana (fig. 6), dois anos antes, com o intuito de derrubar o então presidente da república Arthur Bernardes. Vencidos na capital federal, vieram fugitivos para São Paulo, aqui se reorganizando com nomes falsos, juntando-se aqui com o major fiscal da Força Pública Miguel Costa.

Os rebeldes tomaram pontos estratégicos da cidade, como os quartéis da Luz, as estações da Luz (fig. 7) e Sorocabana e os correios (fig. 8), enquanto atacavam a casa do Presidente Carlos de Campos (assim eram chamados na época os governadores dos estados). Carlos de Campos (fig. 9) empreende fuga para os baixos da Penha, na zona leste, nas regiões da Rua Guaiaúna (o local era a Estação de um ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil (fig. 10), que posteriormente o nome alterado para Estação Carlos de Campos, desativada hoje por conta da linha do Metrô de São Paulo).

Fig 07 Estacao da LuzFig 08 Correio

Fig 09 Carlos de CamposFig 10 Estacao Carlos de Campos

De acordo com o historiador Moacir Assunção, no início do ataque veio a paralisia da capital, sem esboçar reação vigorosa ao ataque dos tenentistas. Com a fuga do Presidente Carlos de Campos veio a acefalia. O plano dos tenentes, tomar rapidamente a cidade de São Paulo e embarcar as tropas para o Rio de Janeiro para depor Arthur Bernardes não se concluiu. Carlos de Campos, de seu refúgio no entroncamento da Central do Brasil, com o apoio do Ministro da Guerra Setembrino de Carvalho reuniu 18 mil homens, canhões com alcance de 11 quilômetros e tanques franceses (arma jamais usada no Brasil) e aviões bombardeiros Breguet. Seis dias após a revolta todo este exército entrou em ação saindo da inanidade para o confronto.

Naquela semana as tropas da Marinha destruíram o quartel general rebelde instalado na Avenida Tiradentes (hoje Quartel da Rota, Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar). A Igreja da Glória, no Cambuci (fig. 11), ocupada pelos rebeldes na Rua Lavapés, foi praticamente destroçada.

Fig 11 Igreja da Gloria
Fig. 11 Igreja da Glória

O governo federal com a cumplicidade do estadual, usava pra combater a revolta o método de ataque conhecido como “bombardeio terrificante” em que os tiros são disparados a esmo, sem destino, para fazer a população se revoltar contra os tenentistas. Este método havia sido utilizado pelos alemães na Primeira Guerra Mundial contra os franceses e belgas sendo condenado pelo mundo civilizado. Aqui o Estado utilizou este método maldito contra a própria população, ferindo, mutilando ou matando civis sem qualquer relação com a revolta.

Fig 12 Igreja de Nossa Senhora da Penha
Fig.12 Igreja da Penha

As tropas legalistas colocaram seus canhões no Pátio da Igreja da Penha (fig. 12) e nas colunas da Vila Matilde atirando sem parar, mirando fábricas como o Cotonifício Crespi (fig. 13) (Moóca), Duchen e a Antárctica além de residências, aonde famílias inteiras pereceram. Com medo de que a população pobre aderisse ao movimento foram bombardeados os cortiços da região do Tamanduateí na Várzea do Carmo (hoje Parque Dom Pedro), aonde haviam se instalado operários imigrantes espanhóis e italianos.

 

Escasseando os alimentos, a população remanescente passou a saquear lojas e mercados (como o Mercado Municipal da Rua

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Fig. 13 Armazem Puglisi
Fig 14 Mercado Municipal
Fig. 14 Mercado Municipal

 

 

 

25 de Março (fig. 14), os armazéns Puglisi e Gamba na Moóca e os Armazéns Matarazzo no largo do Arouche), e alimentar-se de pombos e ratos.

O movimento também adentrou a inúmeras cidades do interior paulista, tomando prefeituras, vandalizando, saqueando, matando e violentando a população. A “Coluna da Morte” era comandada pelo Tenente João Cabanas (fig. 15), comandante do grupo de revoltosos.

Fig 15 Tenente Cabanas
Fig15 Tenente João Cabanas

Uma comissão do estado negociou com o governo federal uma “intervenção caridosa” no estado de São Paulo, pedindo para que os bombardeios aos civis fossem cessados. Mas em 26 de julho os aviões governamentais jogaram panfletos orientando os habitantes da capital a abandonarem suas casas, pois a cidade seria bombardeada mais drasticamente. Mas não havia para onde fugir, já que as saídas da cidade estavam fechadas, e sequer os mortos podiam ser enterrados por força dos bombardeios.
No dia 28 de julho os revoltosos embarcaram em 11 trens de carga para Bauru, com 3500 homens, cavalos, artilharia e alimentos. No mesmo dia Carlos de Campos retornou ao Palácio dos Campos Elíseos. Era o final da revolução de 1924.

Sem poderio militar equivalente para enfrentar as tropas legalistas, os rebeldes retiraram-se para Bauru, reorganizando-se para atacar o exército legalista se concentrava na cidade de Três Lagoas, no atual Mato Grosso do Sul. A derrota em Três Lagoas, no entanto, foi a maior derrota de toda esta revolta. Um terço das tropas revoltosas morreu, feriram-se gravemente, ou foram capturadas.

Fig 16 Luis Carlos Prestes
Fig.16 Luís Carlos Prestes

Os rebeldes, refugiados em Foz do Iguaçu, no Paraná, juntaram-se a tropas vindas do Sul comandadas por Luís Carlos Prestes (fig. 16), formando a Coluna Prestes (fig. 17), maior movimento terrorista que o país já conheceu, que percorreu 25.000 quilômetros no Basil enfrentando forças federais.

 

 

Fig 17 Coluna Prestes
Fig. 17 Coluna Prestes

Notas:

O fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843-1928) é um dos grandes responsáveis pelo conhecimento iconográfico do início do século XX que temos de São Paulo. Gaensly fotografou o que pode ser chamada de a “belle époque” paulistana: seus casarões, edifícios públicos, o apogeu dos barões do café e a reurbanização que eliminava os resquícios coloniais da cidade.

Fig. 5 – Gaensly – Postal n. 16, mostra o Liceu Sagrado Coração de Jesus, na região da Luz / Campos Elíseos.

Fig. 8 – Gaensly – Postal n. 14, vista do Correio Geral. Esse prédio do correio ficava no Largo do Palácio (Pátio do Colégio, onde hoje se encontra o edifício do Tribunal de Justiça). O torreão ao fundo é da Casa Paiva, que aparece também nos postais anteriores.

Fig. 10 – Estação de Trem Carlos de Campos, da Estrada de Ferro Central do Brasil, hoje Rede Ferroviária Federal, desativada em 2008 em virtude do Metrô de São Paulo ter construído a Estação Penha vizinha dela.

Fig. 11 – Igreja da Glória, Cambuci, SP atacada por tropas legalistas.

 

Bibliografia:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_Paulista_de_1924
http://www.infoescola.com/historia/revolta-de-1924/
http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,revolucao-de-24-guerra-em-sp-por-reformas-politicas,10277,0.htm
https://sampahistorica.wordpress.com/tag/liceu-coracao-de-jesus/
https://sampahistorica.wordpress.com/2013/07/04/guilhermegaensly/
Dias Rudes, Moacir Assunção, O Estado de São Paulo, 04/07/2015

Grandes Mestres e Grandes Óperas

Coleção apresentada em Amereicana em agosto de 2010, Goiania em outubro de 2010, Brapex em outubro de 2011, Cruzeiro em julho de 2012 e na Expo-SPP em agosto de 2012.

Uma pequena viagem pelas grandes óperas: seus compositores, maestros e cantores, incluindo ilustres desconhecidos que nortearam com rara beleza a mais antiga das manifestações da sociedade: o canto.

Médicos Brasileiros Ilustres

Coleção apresentada na Expo-SPP em agosto de 2016.

Coleção da classe Um Quadro, mostrando alguns dos médicos brasileiros homenageados pelos Correios através da emissão de selos. O Brasil pode se orgulhar de ter médicos que contribuíram para a saúde pública, não só a nível nacional como a nível internacional, principalmente nas áreas de doenças tropicais e doenças infecciosas e parasitárias.